No Xangrilá das abstrações

Por Nívia Maria Santos Silva

 

tolentino livro

Xangrilá, ou Shangri-la, é uma cidade fictícia criada por James Hilton em seu livro “Horizonte perdido” (1933), uma espécie de paraíso perdido, inspirado em Shambhala. Situada entre muitos desfiladeiros do Tibet, a bela cidade é um local de difícil acesso, poucas pessoas conhecem o caminho entre as montanhas, o que significa que aqueles que são levados até lá não possuem a possibilidade de sair de lá, a não ser que sejam guiados. No romance de Hilton, as personagens que fugiam da guerra tiveram a rota de seu avião alterada até caírem, sendo socorridos por lamas que os levam para Xangrilá. Todos são muito bem recebidos, mas a recepção amistosa e benevolente não os tira da condição de “prisioneiros” daquela terra oculta, sedutora e, sobretudo, repleta de promessas.

Bruno Tolentino se remete a essa cidade acolhedora, mas ao mesmo tempo ilusória, ao se utilizar da expressão “Xangrilá das abstrações”, em seu texto-ensaio-prefácio “O cego nu: um exórdio”. Para ele, é nesse lugar de encantos e ilusão que vai parar tudo o que se “propõe a traduzir o mundo numa exatidão de teorema que termina por conceitualizá-lo […] esvaziando-o de todo sentido”. Inspirado principalmente no pensamento de Ives Bonnefoy, a quem chama de mestre, os dez textos distribuídos nas mais de 70 páginas que formam o prefácio do livro O mundo como ideia (2002) se esforçam na defesa do que Tolentino chama de “mundo-como-tal”, ou seja, o acesso ao mundo sem a interferência das “muralhas de conceitos”, que insistem em intermediar nosso contato com “os dados brutos do real”, desfigurando-o. Estar no “Xangrilá das abstrações” seria, então, nem perceber que se está trocando o mundo-como-tal pelo mundo-como-ideia, um mundo limitado e reduzido, mediado por conceitos que “paralisam o prazer”.

Partindo desse pensamento, Tolentino se coloca contrário às teorias que tentam mediar a experiência do ser-no-mundo, assim como aquelas que se interpõem entre o sujeito e a experiência estética, trocando-a por um “jogo de conceitos” que leva “A notória embriaguez formal da arte pura” e a consequente substituição da “intuição do ser pelo número” e da substância pela ideia. O pensamento que atravessa os textos preliminares de O mundo como ideia retoma e adensa o discurso crítico de Tolentino, divulgado antes em sua atuação polêmica no campo literário brasileiro, tanto por meio de suas intervenções no jornalismo cultural quanto por meio do híbrido e satírico Os sapos de ontem. Escrito ao longo de 40 anos, o livro se apresenta como o zênite do programa poético tolentiniano, que o poeta qualifica como um “projeto em mim”, uma ars poetica, um “arrazoado em defesa do real”.

Na prática, esses ensaios fundamentam especulativamente sua postura antiformalista, antimarxista, antiestruturalista, antivanguardista, antidesconstrutivista, mesmo sem citar diretamente nenhum desses “ismos”, como faz de forma reiterada e explícita em sua produção polêmica. Juntando o quebra cabeças, todos os “ismos” para Tolentino são formas de ceder “a tirania tentadora do conceito”, como a que ele chama de “utopia formalista”. As teorias seduzem e aprisionam agindo de forma totalitarista, uma vez que funcionam como uma patrulha, como se a arte tivesse que ser realizada de determinada maneira para atender anseios que nem sempre são os anseios de seu produtor, provocando uma indesejada inversão entre os fins e os meios.

A postura tolentiniana pode ser facilmente classificada como antiacadêmica e conservadora, no entanto, há de se levar em consideração suas colocações principalmente quando percebemos que seu movimento não é uma reação isolada nem apenas vinda de fora da academia, mas um comportamento que vem tendo adesão de nomes consolidados do campo acadêmico. É inescapável não relacionar o ponto de vista tolentiniano com livros como os de Todorov, A literatura em perigo (2007), e Gumbrecht, Atmosfera, ambiência, Stimmung: sobre o potencial oculto da literatura (2011).

Depois de se tornar um dos nomes de referência do Estruturalismo, Todorov passou a defender a ideia de que a imanência estruturalista e outras teorias fizeram com que triunfasse “uma concepção absurdamente reduzida do literário”, colaborando para o afastamento entre a obra literária e o mundo. Para ele, “Todos os ‘métodos’ são bons, desde que continuem a ser meios, em vez de se tornarem fins em si mesmos”. Em seu livro, essa postura se soma a afirmações do tipo: “A função da literatura é criar, a partir do material bruto da existência real, um mundo […] mais verdadeiro” e “Ela nos proporciona sensações insubstituíveis que fazem o mundo real se tornar mais pleno de sentido e mais belo.”.

Gumbrecht, por sua vez, supera, sobretudo, o desconstrutivismo e os estudos culturais, e parte do pressuposto de que “Em termos conceituais, tudo fica mais complicado”. Ele nos propõe uma terceira via: ler em busca do Stimmung, grosso modo, da sensação. Sobrepor a sensação à interpretação seria valorizar a experiência imediata da obra literária. Ou seja, uma experiência de leitura deve se dar sem a mediação dos conceitos/teorias que leem as obras “como se elas se propusessem enquanto alegorias de argumentos ou agendas filosóficas.” Sua particularidade é que para ele a arte não busca a verdade, a arte existe enquanto presença e não representação.

Dentro das peculiaridades de cada um, os três apresentam como ponto em comum o colocar-se contra a substituição da literatura/arte pelas teorias/conceitos. O que leva então a essa interseção? Esse cruzamento de posturas entre o poeta brasileiro, o filósofo búlgaro e o crítico alemão se retroalimenta apenas do repetitivo discurso da crise ou registra certo cansaço e/ou insuficiência da teoria? Tolentino se reconheceu como um dos “prisioneiros” seduzidos no “Xangrilá das abstrações” em busca de sua “filosofia da forma” e se colocou como aquele que, estando lá, procura apontar a saída, a “diagnose e cura”. O tom de Todorov e de Gumbrecht também parece ser daquele que aponta uma solução. Enquanto não conseguimos perceber direito para onde eles apontam, as teorias vão nos auxiliando a entender melhor suas proposições.

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