Lukács e o ensaio

Por Allana Emília

Créditos da imagem: Grande Núcleo – Hélio Oiticica (1966)

Como já tematizado em alguns dos posts anteriores, pode-se perceber em parte da ficção contemporânea uma certa dicção ensaística. Essa sobreposição entre ficção e ensaio parece ser mais presente em obras consideradas autoficcionais, em que o eu narrador, muito próximo ao autor do texto, comenta sua condição como escritor e a elaboração do próprio texto que lemos. Partindo, então, dessa observação, minha pesquisa de iniciação científica quer compreender melhor as características do ensaio como gênero e sua emergência em meio a tramas ficcionais. 

O primeiro passo, então, foi ler o clássico ensaio de Georg Lukács, Sobre a forma e a essência do ensaio: Carta a Leo Popper. O objetivo principal do texto-ensaio-carta é averiguar se existe uma forma própria para o ensaio, se existe uma unidade para essa forma e se ela é possível. O autor também se pergunta se os escritos dessa categoria vão apresentar essa forma como autônoma – isto significa, nos termos de Lukács, – entender o ensaio não como uma forma científica, mas como forma artística, sem que, no entanto, seja uma forma de arte propriamente dita. Partindo dessa especulação, o autor defende o ensaio como gênero e elogia sua forma única. 

A princípio, o filósofo húngaro toma o ensaio e a crítica como sinônimos, aproximando-os à arte.  Frisa também que essa discussão não reflete o que, para ele, é primordial: “O que é o ensaio, que expressão almeja e de quais meios e caminhos se serve”, são as perguntas que gostaria de responder. Assim, Lukács chega à conclusão de que a aproximação do ensaio à arte nada diz sobre o questionamento acerca de sua essência, a não ser que haja um esclarecimento sobre o que significa distanciar o ensaio da ciência e aproximá-lo à arte. O ensaio é um gênero artístico, que não se limita apenas a “ser bem escrito”, como é também algo que causa um efeito indelével, “algo que é novo por princípio e não mudaria em virtude de uma conquista total ou aproximada de objetivos científicos.”. Para o autor, o ensaio almeja expressar uma perspectiva, um ponto de vista sobre a vida e o faz ao escrever sobre a arte, utilizando-a como instrumento de mediação. Porque o que é expresso pelo ensaio é a vivência intelectual que emerge por meio de uma escrita tateante, questionadora e reflexiva sobre um determinado tema, disparada pelo comentário sobre uma obra artística. 

Lucáks afirma que o começo do desenvolvimento do ensaio foi grandioso, pois Sócrates refletia sobre a vida vivente e vivia baseado no que pensava. Para o autor, o ensaio não visa a uma conclusão, não se prende a desfechos, apenas suscita reflexões sobre um determinado tema. Lukács, então, encontra um paralelo entre o que era feito nos ensaios modernos e nos ensaios de Platão – “Que seja dito para a nossa felicidade: também o ensaio moderno não fala de poetas e livros – mas essa salvação o torna ainda mais problemático”.  O problema está no fato de que, ao abordar diversos temas, o ensaio como gênero não está associado a nenhum em especial e essa multiplicidade no tratamento de assuntos dificulta a percepção de uma forma, sua caracterização como gênero. 

Talvez o ensaio e sua dicção tateante, escrutinadora e sua forma in-forme ajude-nos a pensar algumas formas da ficção contemporânea. 

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2 Respostas para “Lukács e o ensaio

  1. Pingback: Adorno e o Ensaio | Leituras contemporâneas - Narrativas do Século XXI

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