Fotografias e narrativas

Samara Lima

Créditos da imagem: “As fantasias eletivas” de Carlos Henrique Schroeder

Como já comentei, minha pesquisa de iniciação científica busca investigar a presença de imagens fotográficas nas produções literárias contemporâneas. Durante minha investigação, percebi que seja abrigando múltiplas significações, embaralhando as noções de ficção e verdade, ou ainda sendo tratadas como mero registro documental, a presença de imagens em meio a narrativas ficcionais não deixa de nos causar certa perturbação, por mais comum que esse procedimento esteja se tornando.

Hoje, gostaria de comentar As fantasias eletivas, um romance escrito por Carlos Henrique Schroeder e publicado no ano de 2018. Aí, acompanhamos a história de Renê, um recepcionista de hotel incomodado com as visitas de Copi, uma travesti argentina. O personagem é uma espécie de homenagem ao famoso escritor argentino Raul Damonte Botana, mais conhecido como Copi, que faleceu em decorrência de complicações relacionadas à AIDS. 

A relação entre os dois personagens começa com uma briga e se consolida em uma inesperada amizade. Da mesma forma que Renê, pouco a pouco, o leitor vai desvendando a trajetória de Copi: o gosto pela leitura, sua tristeza interior, o curso de jornalismo em Buenos Aires, as tentativas de seguir o caminho da escrita e sua paixão pela fotografia. 

Em um dado momento da narrativa, acompanhamos as reflexões de Copi sobre a fotografia, sobre a relação das imagens com a literatura. Copi revela a Renê uma sequência de fotos, acompanhadas de “pequenos textos”. As fotos, reproduzidas no livro, mostram objetos simples: um relógio, um espelho, uma placa de trânsito, tiradas com uma Polaroid. Essas imagens retratam o ordinário do cotidiano e a solidão dos objetos, mas também a própria solidão e condição de outsider de Copi. Mas que relação pode haver entre a reprodução das fotos e o universo ficcional elaborado pelo romance?

Para Copi, as fotografias são instantes capturados da realidade e funcionam como “uma espécie de segunda memória.” É curioso notar que essa percepção é facilmente comparada com o comentário de Joan Fontcuberta, em A caixa de Pandora, acerca da fotografia analógica. Entre tantas outras coisas, o autor comenta que, durante muito tempo, “a fotografia esteve tautologicamente ligada à memória”, preenchendo arquivos, coleções, álbuns familiares, a fim de servir como documento e autenticação da experiência.

É bem verdade que a visão da fotografia como atestação da existência de uma realidade está cada vez mais sendo contestada na contemporaneidade, mas é esse pensamento que parece impregnar não apenas as reflexões que Copi faz sobre a fotografia, mas também o modo de funcionamento das imagens junto à narrativa de Schroeder. 

A imagem que abre este post faz parte da série de fotos tiradas por Copi e me parece um exemplo emblemático para pensar a relação entre texto e imagem neste romance. A foto é acompanhada por este texto: 

Os telefones públicos, os populares orelhões, amargam a exclusão completa, imposta pela popularização dos celulares. Pesquisas indicam que 78% dos orelhões consomem entorpecentes. Eles tornam-se um grave problema social, pois é provável que mais da metade deles caia na indigência. Em todos os cantos do país é possível vê-los, sempre sozinhos, cabisbaixos e tristes, à espera de um milagre.

O caráter documental da imagem fica mais evidente quando a personagem afirma mais à frente que seus textos “são baseados em fotografias”. O fato é que as imagens tiradas de sua Polaroid não parecem atuar como potências imaginativas, mas sim como meros artifícios para “entender um pouco mais os processos literários” nos quais Copi diz estar interessado. 

O texto dá vida ao orelhão, conferindo a ele tristeza e abandono em função da massificação dos celulares. Entretanto, quando questionamos o efeito da presença da foto em meio à narrativa, é evidente que a imagem não parece instaurar dúvidas, expor as contradições da representação ou oferecer formas de expansão do texto, já que opera por reduplicação: observamos a imagem de um orelhão e em seguida lemos uma menção direta ao telefone público. Aqui, é o texto que “amplia” e acondiciona a imagem (documental) à narrativa, pois o texto emoldura a foto destacando a “solidão e o abandono” do orelhão, que por sua vez funciona como metáfora da condição de Copi, tal como retratado pela narrativa.

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