Lísias, Delegado Tobias, e-books e facebook

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 Por Marília Costa

O contexto das novas tecnologias reconfigura o sujeito contemporâneo de modo que torna o ambiente propício para o retorno do autor. Atualmente existe uma grande valorização da intimidade, uma obsessão pelo vivido.  Todo mundo tem um perfil na internet onde publica informações a respeito da sua intimidade. Os autores criam histórias a respeito das suas vidas que não são necessariamente reais. É um jogo de influências, o personagem empírico fabrica a figura autoral estimulando poses e a criação de mitos.

Além de produzir biografias, autobiografias, memórias, diários íntimos, os autores participam de entrevistas, contam histórias de vida e expõem a intimidade fazendo relação com suas obras, construindo imagens de si mesmos a partir de um jogo de identidades cênicas e fragmentadas.  O escritor cria várias performances de si mesmo, deste modo, as intervenções do escritor não devem ser consideradas como expressões de uma interioridade ou de experiências pessoais, mas como narrativas que tecem identidades sempre em processo.

O conjunto de narrativas intituladas Delegado Tobias que Ricardo Lísias, autor da literatura contemporânea brasileira, vem publicando em e-book é um exemplo digno de validar os pressupostos acima, concernentes aos veículos midiáticos serem usados pelos autores para criar personas, divulgar suas obras e fazer das redes sociais um suporte de divulgação de suas publicações.

Podemos dizer que a série de narrativas Delegado Tobias é autoficcional, pois traz à tona elementos da vida do autor que dialogam com acontecimentos imaginários. Contudo, o leitor comum pode confundir-se num primeiro momento quanto aos limites entre a ficção e a realidade, devido ao excesso de personagens “reais” como críticos, editores e professores de Literatura mencionados nas narrativas. Encontramos, ainda, o próprio Lísias, que aparece como autor e personagem, assassino e assassinado.

Mas há mais:  após publicar na forma de e-book a série intitulada Delegado Tobias, (à venda nos sites das principais livrarias, como Cultura e Saraiva), Lísias publica também em sua rede social o que ele mesmo chama de um último capítulo da série, intitulado “Os Documentos do Inquérito”. Trata-se do perfil fictício de um delegado criado numa rede social alimentada por editores e por um autor lançando notícias falsas que dialogam com situações e personagens que podem ser encontrados na série narrativa vendida em e-book.

Acompanhando as produções recentes de Ricardo Lísias, o leitor depara-se não somente com uma história inventada, mas reconhece no texto autoficcional características de personagens ou fatos que refletem informações vinculadas à própria pessoa do autor. Essa relação entre produção narrativa e produção de si é estimulada pelo jogo entre a publicação da ficção (da autoficção) e da intensa participação do autor em suas redes sociais.

Podemos concordar, então, com Ana Claudia Viegas, quando afirma que  “assistimos hoje a um ‘retorno do autor’, não como origem e explicação última da obra, mas como personagem do espaço público midiático” (VIEGAS, 2007: 15).

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