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Delicadeza ao avesso

Por Neila Brasil Bruno

Sinfonia em branco – Adriana Lisboa

Alfaguara, 2013 [2001, Rocco]

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Em Sinfonia em branco, romance de Adriana Lisboa, a narrativa sobre a infância das personagens Clarice e Maria Inês constrói-se por meio de recuos e avanços temporais, de lembranças independentes e interligadas. Nota-se a presença de referências significativas ao romance A morte em Veneza, de Thomas Mann, e a um quadro de Whistler. O enredo coloca em debate situações da realidade urbana que se constituem em torno da violência traumática experimentada por Clarice. É possível assinalar diversas qualidades em sua estrutura, como os elementos narrativos, o estilo refinado e a escolha de personagens, que nos permitem encontrar no livro uma espécie de compromisso: narrar uma boa história.

Valendo-se dos dramas familiares envolvendo Maria Inês, Clarice e os pais (Afonso Olímpio e Otacília), Lisboa invoca, ao longo dos quinze capítulos, temas como adultérios, abuso sexual, amor, paixão e morte. As personagens transitam entre o meio rural – fazenda nas cercanias de Jabuticabais –, representando a vida bucólica, e o Rio de Janeiro, representando a vida urbana. Nos entremeios dessa história, borbulham outras. Por momentos, surge a que poderia ser de Tomás, um pintor absolutamente apaixonado por Maria Inês, ou mesmo a de Otacília, que aos vinte oito anos casara-se com Afonso Olímpio sob secretas expectativas de felicidade.

Todo o universo do romance ancora-se nas experiências vividas pelas duas filhas de Otacília e Afonso Olímpio. A narrativa mostra-se bem à vontade com as idas e vindas que sustentam as vidas das personagens Maria Inês, Clarice, Tomás e Eduarda: todos eles fogem para o passado numa tentativa de compreensão dos eventos que foram silenciados, mas não totalmente esquecidos.

Em Sinfonia em branco, Lisboa parece ativar, de maneira expressiva, referências constantes à música e às artes plásticas. Por meio da atividade criadora, desmistifica a temática da violência proposta no romance através da delicadeza com que a história é narrada. De fato, é um romance atravessado por poesia, suavidade e fluidez, que convoca o leitor a exercer suas capacidades interpretativas, decifrando os segredos ao longo das páginas.

Publicado em 2001 pela Editora Rocco, Sinfonia em branco recebeu em Portugal, no ano de 2003, o Prêmio José Saramago, sendo alvo de elogios e das boas impressões de críticos e leitores. O romance favoreceu a carreira internacional de Adriana Lisboa e, atualmente, já foi traduzido para dez línguas, com traduções em albanês e esloveno no prelo. Em 2014, foi relançado pela Editora Alfaguara com um novo design de capa, edição corrigida e um prefácio redigido por Pilar del Río, presidente da Fundação José Saramago. O impacto dessas mudanças consolida e fortalece a trajetória literária de Adriana Lisboa.

 

O princípio de ver histórias em todo Lugar – Leonardo Villa-Forte

Por Débora Molina

O princípio de ver histórias em todo Lugar

Leonardo Villa-Forte

Ed. Oito e meio

2015

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Primeiro romance do carioca Leonardo Villa-Forte (o autor já tinha lançado em 2014 um livro de contos, O explicador), O princípio de ver histórias em todo lugar, lançado em 2015 pela editora Oito e Meio, traz uma instigante e divertida história acerca do processo de escrita no contexto contemporâneo. Conhecido por suas investidas na escrita não-criativa, Villa-Forte, já apresentado aqui no blog, escreve uma narrativa que propõe um desvio, sem se esquivar desse projeto, apresentando uma reflexão sobre a escrita literária e os impasses vividos por quem quer tornar-se autor hoje.

O primeiro romance do autor é narrado em primeira pessoa e dividido em 34 capítulos, quase todos intitulados pelos seus respectivos números. O livro conta a história de um jovem publicitário que após a viagem a trabalho de sua esposa Cecília, sente-se solitário e entediado. Mas é justamente a ausência de sua cônjuge que o move a especular sobre o verdadeiro objetivo desta viagem: teria Cecília ido à Alemanha atrás de seu antigo namorado?

Em meio a especulação, inúmeras histórias sobre Cecília surgem e o protagonista decide remediar a tensão e a solidão, oferecendo durante os meses da ausência de Cecília, uma oficina de escrita criativa em sua própria casa. O mais irônico nessa proposta é a motivação do narrador que não é um autor profissional, mas quer oferecer uma oficina de criação literária por acreditar que é um bom escritor. A ideia surge devido à lembrança de quando mais jovem ter frequentado uma oficina de escrita criativa de um famoso escritor. Embora não tenha se dedicado à carreira autoral e de não ter um livro publicado, acredita em seu potencial pelo fato de alguns colegas de sala terem dispensado elogios a seu texto. De modo bastante irônico, Villa-Forte parece dizer algo: o que define um autor ou um texto literário?

Naquela oficina que fiz com ele, eu era o mais jovem do grupo. Quando os outros alunos falavam de mim, usavam expressões como “promissor” e jovem talento. […] Quando lia meus contos, achava-os parecido demais com os de outros autores, como se meus contos tivessem que ser ainda melhores para que pudesse reconhecê-los como meus […] Esse grau de exigência às vezes até me levava a não assinar os contos, como se faltasse algo para que chegasse à altura do meu carimbo, à altura da minha marca. (VILLA-FORTE, p 37, 2015)

Começa então um jogo autoral, que torna mais instigante o livro, pois todos os contos criados pelos alunos personagens são inseridos integralmente na narrativa, o que demonstra grande habilidade do autor em criar perfis de escrita diferentes na mesma narrativa, já que cada personagem tem sua própria voz autoral.  É divertido ler a reação do narrador que após a leitura dos contos indaga sobre o caráter de cada personagem. Lendo o texto produzido por Thomas, personagem que pode ser descrito como um suicida em potencial, o narrador se dá conta de como os alunos projetam na escrita uma espécie de fuga da vida:

Os costumes e os valores que recebera de herança não serviam mais às suas motivações. Num de seus contos ficava clara a opção radical pela fuga, precisamente o conto do suicídio, o pulo através da janela, eu devia ser a janela da casa de seus pais na Bélgica. (VILLA-FORTE, p 175, 2015)

Mas o que chama a atenção no livro é a trama que atravessa a narrativa: as maneiras sobre como elaborar um bom conto e quais as técnicas necessárias para atingir algo digno de ser tratado como literário. O narrador protagonista, que já podemos perceber é dono de um enorme ego e não é nem um pouco confiável, demonstra certa cretinice ao mostrar que mesmo não se considerando autor, vê a si mesmo como um ótimo professor, já que estudou os recursos através de uma bibliografia que roubou da oficina que cursou.

Com um final inusitado, Villa-Forte faz uma crítica mordaz ao modo como o processo de criação literária e o próprio conceito de autoria são tratados hoje por meio de seu narrador personagem. O princípio de ver histórias em todo Lugar questiona com ironia a noção de originalidade e de criatividade ainda tão presentes quando se trata de avaliar a qualidade dos textos literários contemporâneos.