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Retrato de Época: um caminho possível

Por Nívia Maria Santos Silva

No livro Retrato de época: poesia marginal anos 70, Carlos Alberto Messeder aponta que a divulgação de sua pesquisa poderá resultar em certo constrangimento para ele mesmo, pois prevê que as pessoas entrevistadas ao longo do trabalho reajam de maneiras muito diferentes à interpretação que faz de seus depoimentos e também da leitura que realiza da produção poética brasileira desse período. “Algumas considerações sobre o processo de pesquisa” são feitas logo no capítulo de abertura do volume e me levaram a pensar em alguns dos impasses próprios à prática de todo pesquisador, em especial daqueles que resolvem realizar entrevistas com seus informantes, como também é o meu caso, na investigação que realizo sobre a obra de Bruno Tolentino.

Messeder entende a entrevista como instrumento basilar e cria critérios específicos para escolha de seus informantes, selecionando as informações que desejava conhecer sobre a produção, a trajetória e localização social dos autores, procedimento que está se mostrando frutífero para meus propósitos.

Por inscrever-se em uma perspectiva antropológico-social ao visar a produção literária, o autor afirma cuidar para não recair em uma visão mecanicista ou determinista, o que também foi algo que no início do meu próprio processo de pesquisa, me afligia, pois  esse parece ser um desafio que se tem de enfrentar quando se opta por ler “a literatura como faceta do fenômeno cultural”.

A investigação das relações sociais, com autores disputando a legitimidade cultural de seus respectivos produtos, é outro ponto de convergência do desenvolvimento de minha pesquisa com as práticas aplicadas por Messeder na análise de seu objeto. Entretanto o seu “interesse não era a literatura ou a arte, mas a produção intelectual como um todo”, mesmo que tivesse “preocupado, ao mesmo tempo, com os produtos – os livros de poemas e os poemas – e com a própria organização da produção”. Isso fez com que sua abordagem escapasse do campo da literatura e deslizasse para  o campo mais amplo da produção cultural.

Não posso perder de vista, por exemplo, que Tolentino protagonizou polêmicas por meio do jornalismo cultural e atuou também como editor e ensaísta de revistas literárias, ou seja, a imprensa é tão importante para mim quanto foi para Messeder “Não apenas pela presença do meu objeto empírico, como pelo debate ali constituído”.

Não pretendo deixar meu trabalho “escapar da literatura”, e embora me debruce sobre o campo e seus aspectos relacionais e objetive situar Bruno Tolentino num campo literário maior, por meio do estudo de sua emergência no campo cultural e do universo no qual atuava, minha tese pretende pensar sua produção, sem abrir mão da leitura e análise do texto poético tolentiano e de seu trabalho crítico, perscrutando sua ideia de poesia e suas particularidades. Por isso, são interessantes, para meu projeto, as perscrutações que Messeder realiza sobre as produções, temas, ideias a respeito do que seja o poeta, a própria poesia, sua ideologia estética.

Sem dúvida nenhuma, entretanto, penso que o ponto principal, entre todos os apontados por Messeder, foi a necessidade da criação de uma pergunta norteadora: “Qual o dado unificador destas experiências literárias e sociais até certo ponto tão diferentes?” Em meu processo de pesquisa, entre uma angústia e outra, estou em busca da minha “pergunta norteadora”, uma pergunta que me ajude a dar corpo a todo material que já coletei e selecionei e a traçar a linha que permeará toda a redação da minha tese.

Pesquisa: uma aventura autorreflexiva

Por Nívia Maria Santos Silva

Muitas vezes, em nossa ânsia por encontrar uma fundamentação teórica perfeita para nossos objetos de pesquisa, vemo-nos inclinados a aplicar em nossos estudos conceitos operatórios que se encaixam com as nossas necessidades científicas e, assim, acabamos por promover um uso automático e engessado de teorias as quais passamos a defender indiscutivelmente como se tivéssemos nelas uma crença quase sagrada, fazendo delas o porto seguro de nossas ideias, a fim de confirmar nossas conclusões, as quais, em ocasiões várias, são tomadas antes mesmo de o trabalho ter sido executado.

Tal procedimento, todavia, conduz a uma espécie de cegueira intelectual com a qual não conseguimos perceber que uma pesquisa não deve buscar apenas aquilo que nela parece se encaixar. Imprescindível é lembrar que os conceitos operatórios não são imutáveis nem insubstituíveis e as teorias não anunciam verdades absolutas. Por isso, não devem ser tratadas de forma doutrinária como se o que proferem fosse insuperável e nem os seus teóricos devem ser seguidos dogmaticamente e defendidos com fervor muito próximo ao religioso.

Não é a fé que deve conduzir o pesquisador, mas a visão crítica, a capacidade analítica e, obviamente, a pesquisa propriamente dita, que não se limita a levantar informações e obter conhecimentos, mas abarca, sobretudo, ter critérios para selecioná-los, filtrá-los, relacioná-los, reelaborá-los, até mesmo, mostrar-lhes as fragilidades e, por que não, dispensá-los parcial ou totalmente.

Essa postura crítica e reflexiva não é fácil e exige, especialmente, que o pesquisador saía da zona de conforto e perca um pouco (ou muito) de suas certezas, o que pode levá-lo a recuar, mas também a realizar um trabalho mais apurado e importante para comunidade acadêmica e a sociedade em geral.

Cabe ao pesquisador se apropriar sim, mas também refutar, reformular, criar e, dessa forma, fazer surgir novos pontos de vista. É assim que surgem novas teorias que, por sua vez, serão revisitadas e a partir delas gerados novos conhecimentos e conceitos. O exame da teoria escolhida pode, por si, mostrar fissuras que alargam as possibilidades de surgirem novos resultados, o que torna a pesquisa uma empresa extraordinária, imprevisível e fértil.

Essa conduta combativa é como a de um aventureiro prestes a se entregar a um feito perigoso e sem um fim previsível que, inclusive, pode deixar sequelas irreversíveis. Revisitar os conceitos operatórios que o dirigem e se lançar na empreitada de reexaminar a teoria escolhida para nortear seus estudos e estabelecer sua tese é aceitar esse desafio. Para tanto, o pesquisador tem que se jogar de parapente da encosta montanhosa e rígida na qual se apoiava e se deixar conduzir, autorreflexivamente, pelos ventos da seguinte questão: quais são os limites da fundamentação teórica que me orienta?