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As oficinas literárias e a profissionalização do autor

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Por Larissa Nakamura

Aproveitando a deixa do último post escrito por Neila, aqui, no blog, vale a pena comentar o artigo publicado recentemente pela Folha de S. Paulo, intitulado “Escritores consagrados ajudam novos talentos com oficinas”. O texto relata casos de bem sucedidos autores da literatura brasileira que ministram oficinas de criação literária para aspirantes a escritor ou mesmo artistas com experiência no mercado das letras. De modo geral, a razão que parece motivar essas pessoas a frequentar tais oficinas é uma busca por novas referências, ideias, temas, discussões sobre arte etc., o que deve variar de acordo com o método escolhido por cada palestrante.

As oficinas literárias apresentam-se como um cenário em plena expansão ao longo dos anos e funcionam não apenas como um ponto de partida para escritores iniciantes, mas também como atividade remunerada ligada à literatura para autores cada vez mais conhecidos pelo público em geral e pela crítica especializada, segundo a reportagem. Como o post de Neila apontava, há casos de sucesso de autores que frequentaram oficinas literárias e aos poucos consolidaram sua carreira e conquistaram prêmios literários. Apesar disso, é importante frisar que, de acordo com o que afirma Trevisan no artigo, “[…] o treinamento não visa, necessariamente, a profissionalização literária.”

Acreditamos que o tema trazido pelo artigo traz à tona alguns dos elementos mais frequentes na profissionalização do escritor e que garantem a manutenção de sua carreira. É possível afirmar que os escritores que ministram as oficinas já têm certa autoridade, reconhecimento e experiência, ao menos no que tange ao circuito das artes. Assim, osworkshops propiciam aos autores uma oportunidade para se articular e circular entre seus pares.

A participação cada vez maior em atividades diversas relacionadas à literatura (como, por exemplo, a oferta de oficinas literárias), incrementa a profissionalização do escritor e amplia sua circulação e atuação no campo literário, além de assegurar um retorno financeiro para além dos acordos contratuais com as editoras para publicação da obra literária.

Noemi Jaffe, Lourenço Mutarelli, Marcelino Freire e João Silvério Trevisan despontam como alguns dos nomes à frente das oficinas. Não deixa de ser curioso observar como muitas vezes o método adotado pelo autor ao ministrar a oficina pode revelar muito do próprio processo de escrita de cada um. Jaffe afirma que “[…] não conseguiria escrever sem elas [as aulas].”, já que, segundo ela: “Os cursos me obrigam a ler tempo todo e buscar fontes novas para os exercícios.”. Já no caso de Mutarelli, a parte inicial de pesquisa (recolhimento de recortes e panfletos, e posterior colagem dos mesmos de forma aleatória) e a consequente produção textual pelos alunos refletem o mesmo método de escrita do autor, que assim pretende montar parte de seu novo romance. Por fim, Trevisan deixa claro que deseja partilhar no seu próximo curso as etapas de criação do romance que está em andamento, fato que pode servir de inspiração para jovens estreantes na literatura.

Apostamos que os cursos de escrita criativa apresentam-se como um forte marcador de algumas das possibilidades existentes de atuação no campo literário para o escritor que deseja solidificar sua carreira. Por fim, pensamos que tais workshops, propiciam ao próprio ministrante e também aos seus alunos a criação de uma rede de sociabilidade, tão necessária para alimentar a cena literária.

Acesse aqui o link para o artigo.

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Oficinas de criação literária: esboços de escritor

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Por Neila Brasil

É notável a crescente oferta de oficinas literárias na cena contemporânea brasileira. No Brasil, um dos nomes de destaque é Luiz Antônio de Assis Brasil, que vem ajudando a formar escritores de diferentes gerações. A partir de 1985, Assis Brasil abriu a primeira turma da “Oficina da PUC”, em Porto Alegre, vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Letras. Se, no início, as oficinas eram abertas para o público em geral, hoje é preciso candidatar-se a um processo seletivo.

As oficinas ministradas por Assis Brasil têm ganhado notoriedade ao longo desses trinta anos. Escritores como Michel Laub, Amilcar Bettega, Cíntia Moscovich, Daniel Galera, Paulo Scott e Carol Bensimon são alguns exemplos de autores que têm conseguido destaque no cenário nacional e que passaram pela “Oficina da PUC”. Em depoimento ao site ZH Entretenimento sobre o trabalho de Assis Brasil, o escritor Michel Laub afirmou: “Ele foi a pessoa que mais me ajudou no início da carreira. A oficina me tornou um leitor melhor, no mínimo, e portanto um escritor melhor – considerando que escrever é ler o próprio trabalho o tempo todo, julgando o que presta e o que deve ser jogado fora”.

A oficina literária também pode ser entendida como uma espaço de formação da carreira do escritor. Além da muitas oficinas ministradas por autores que também passaram pela experiência de formação das oficinas,  também é possível encontrar oficinas de criação literária on-line. Adriana Lisboa, escritora carioca ofereceu, pela internet, uma dessas oficinas que consistia em encontros semanais virtuais, com duas horas de duração por encontro, durante quatro meses. Nas oficinas são discutidos elementos básicos da escrita de ficção e o resultado desses encontros deu origem ao e-book 14 novos autores brasileiros, lançado pela Mombak Editora.

Na apresentação ao volume, Lisboa observa que “a maior carência de um escritor acho que é a de um par de olhos ou ouvidos com que se possa compartilhar um trabalho e perguntar aquele sincero ‘e então?’ – para em seguida ouvir, com sorte, uma crítica sincera, pormenorizada, construtiva, arguta (embora não necessariamente agradável). O texto sai daí revigorado, livre do abismo do próprio umbigo. O mundo é vasto, ainda que seja uma bolinha de gude”.

As oficinas podem se configurar como sessões conjuntas de análise crítica dos textos contribuindo assim para a formação e o amadurecimento da carreira literária dos escritores, já que muitos escritores contemporâneos confirmam o quanto essas oficinas podem contribuir para a profissionalização. Podemos, então, arriscar dizer que tais espaços são interessantes para o debate do fazer literário e possibilitam compreender o trabalho de outros escritores, seu surgimento e atuação no campo literário.

As muitas vidas de autor

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Por Marília Costa

Isto não é um cachimbo – Perfis literários  é um projeto criado em maio de 2012 por Luiz Nadal, jornalista e pesquisador de literatura contemporânea, que ficcionaliza a vida e obra de escritores da prosa contemporânea, como Ricardo Lísias, Veronica Stigger, Adriana Lisboa, Bernardo Carvalho, Lourenço Mutarelli entre muitos outros. O modo peculiar de narrar os perfis, misturando a função comunicativa da crônica, reportagem, ficção e crítica literária intriga o leitor. Cada texto parece na verdade uma longa entrevista em que Nadal  reúne além de suas próprias impressões como leitor da obra dos autores que ganham perfis literários no site, opiniões que poderiam ser expressas pelos autores retratados.

O nome do site mantido por Nadal é inspirado no quadro do pintor belga René Magritte que retrata um cachimbo e traz a inscrição “Ceci n’est pas une pipe” ou “isto não é um cachimbo”. Assim como a pintura de um cachimbo não é um cachimbo, mas sim uma pintura de um cachimbo, Nadal sugere que os perfis literários que podemos encontrar ali  não têm a pretensão de retratar os autores, mas consistem em representações.

O modo particular de apresentar os autores contemporâneos em Isto não é um cachimbo – Perfis de autor é atrativo devido ao fato de fazê-lo através da própria literatura. O autor deixa de ser apenas o ourives da linguagem e passa a ser também a pedra preciosa modelada, moldada e refinada pelas palavras e jogos linguísticos, constituindo-se como autor e personagem dentro de uma obra.

Esse jogo de identidades cênicas tecido na cadeia narrativa tende a ser sintomático na contemporaneidade, já que muitos autores que se tornam personagens de Nadal apostam, eles mesmos em suas obras, no teatro de suas performances.

O que Luiz Nadal fez não é diferente do que muitos autores vem fazendo para angariar  um espaço no campo literário, que é construir perfis em redes sociais e publicar informações de fórum intimo, criar histórias a respeito da suas próprias vidas que não são necessariamente reais. É um jogo de influências, o personagem empírico fabrica a figura autoral estimulando poses e a criação de mitos. Essa grande valorização da intimidade dos escritores e obsessão pelo vivido podem ser atribuídas ao retorno do autor contrariando o prognóstico de Barthes.

Paginário: Escrita não-criativa em exposição

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Por Débora Molina

Em um outro post meu, Ladrão que rouba ladrão, inicio com uma imagem bastante convencional à escrita literária: a figura do autor, solitário, em frente ao papel em branco, à espera de inspiração. Esse figuração da autoria,  ainda  muito presente no imaginário contemporâneo, pode ser pensada de forma diferente se consideramos o autor como uma espécie de  gênio não-original, como afirma Marjorie Perloff. O escritor não original produz novas narrativas a partir da seleção, cópia e colagem de textos literários já existentes, técnica que já foi nomeada pelo também poeta Kenneth Goldsmith de “escrita não-criativa” ou escrita  remix, baseada na operação de  cut up.

 É desta forma que o autor carioca Leonardo Villa-Forte e criador do blog MixLit – O Dj da literatura escreve sua literatura e pode ser pensado como um gênio não original. O blog é um projeto inspirado na técnica de sampler, recurso de edição e seleção de músicas utilizado por Djs, que resulta na composição de uma nova música a partir de fragmentos de outras. Segundo Villa-Forte, a ideia surgiu no momento em que lia cerca de 10 livros em conjunto, quando percebeu que alguns fragmentos de um livro, poderiam ter ligação com fragmentos de outros. Foi então, que teve a ideia de construir um blog na internet, para publicar seus textos: a partir da apropriação de fragmentos de textos literários alheios.

 MixLit 62: Ainda hoje
Com um semblante consternado1, ela se inclinou, deu-me um beijo e murmurou:
“Você está com aquele seu olhar de órfão novamente.”2
“Não”3, eu disse, também pesando cuidadosamente.4
______________________________________________________________________
1 Josué MONTELLO. O camarote vazio. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990, p.34.
2 Alain DE BOTTON. Ensaios de amor. Tradução de Fábio Fernandes. Rio de Janeiro/Rio Grande do Sul: Rocco/L&PM, 2001, p.107.
3 Machado de ASSIS. Quincas Borba. Rio de Janeiro: Garnier, 1998, p.207.
4 Péter ESTERHÁZY. Os verbos auxiliares do coração. Tradução de Paulo Schiller. São Paulo: Cosac Naify, 2011, p.19.

Além do blog Mixlit, em 2014, Leonardo Villa-Forte,  iniciou um projeto coletivo junto com Rodrigo Lopes chamado Paginário, uma espécie de mural construído com colagens de páginas de diferentes livros de diversificados autores, as páginas são enviadas por variadas pessoas e o remix literário é feito por meio do destaque de trechos na página em exposição.

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No projeto Paginário, o texto literário é reinventado, recriado e ganha um outro formato: o mural, o que pode ser pensado como uma desterritorialização da forma como lemos e entendemos literatura. O leitor é também um pouco espectador, pois posta-se diante de um painel com diferentes recortes de textos em um espaço público que lhe oferece uma nova aventura muito diferente de outra figuração moderna da leitura associada à solidão e ao silêncio.

Em seu livro Pós produção, Nicolás Bourriaud entende que a produção artística contemporânea passa por um processo que o crítico nomeia de pós-produção. Bourriaud conclui que hoje os materiais artísticos não são mais elaborados através de uma matéria bruta, mas por meio dos materiais já existentes, já confeccionados. E, deste modo a palavra pós não atribui um teor negativo ao recurso, mas apenas uma aplicação de uma reelaboração, utilização, curadoria da matéria artística inscrita na história. Portanto, para o crítico, o produto artístico contemporâneo não se coloca como acabado “mas como um local de manobras, um portal, um gerador de atividades. Bricolam-se os produtos, navega-se em redes de signos, insere-se suas formas em linhas existentes”, afirma o crítico.

O procedimento de escrita não-criativa procura utilizar os produtos que já estão aí, em circulação. Neste processo o que importa mais é a criação a partir da curadoria e seleção e montagem destes materiais do que a invenção dada por uma gênio criador. O que parece bastante curioso é que a atuação do autor de escrita não-criativa coloca em xeque a condição da autoria entendida como gênio ao brincar com as palavras dos outros e criar uma nova forma de produzir Literatura.

Vivemos no período pós-histórico da arte?

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Por Davi Lara

Arthur C. Danto é um importante filósofo e crítico de arte norte-americano. O Descredenciamento Filosófico da Arte (Belo Horizonte: Editora Autêntica, 2014; Coleção Filó) é o livro com qual eu fui apresentado ao seu pensamento. O volume é constituído por nove ensaios escritos em épocas e contextos distintos que têm como eixo a reflexão em torno da arte. Da miríade de diferentes temas e abordagens que são tratados no livro, eu vou me deter apenas em certos aspectos da filosofia da história da arte desenvolvida pelo autor, com foco em sua provocativa tese sobre “O Fim da Arte” (que é também o título de um dos ensaios), que me parece especialmente estimulante para se pensar a arte e a literatura contemporâneas.

O primeiro ensaio da coletânea, que empresta seu nome ao volume, defende uma tese surpreendente de acordo com a qual toda a história da filosofia ocidental é considerada como um grande esforço conjunto (iniciado por Platão e desenvolvido por Kant e Hegel) pelo descredenciamento da arte. Infelizmente, não há espaço aqui para discutir pormenorizadamente este ensaio. Posso dizer, no entanto, que o considero interessante na medida em que ele traz para o debate uma série de reflexões acerca da influência da estética para o desenvolvimento da arte ocidental. Reflexões essas que ocupam um papel fundamental na elaboração da filosofia da história da arte concebida pelo autor.

De acordo com Danto, se a filosofia pode ser definida como o descredenciamento da arte, no curso de seu desenvolvimento histórico, a arte acabou caindo na armadilha montada pelos filósofos, e os artistas passaram a criar baseados na visão que a filosofia tem da arte. A filosofia da história da arte de Danto defende a tese de que o motor da narrativa histórica da arte ocidental foi a busca da arte pela sua própria essência. Essa busca não se dava, naturalmente, pelo pensamento crítico, mas pelas próprias obras artísticas. No momento em que a arte conseguisse expressar a sua própria essência, aí se daria o fim da arte. De acordo com Danto, essa busca por si mesmo chega ao fim no momento em que se pôde separar um utensílio do dia-a-dia e considerá-lo como arte.

Um dos exemplos privilegiados pelo filósofo é A Fonte, famosa obra de Duchamp, que nada mais é que um mictório, idêntico a vários outros mictórios (que, não preciso lembrar, são produzidos em série) em todos os aspectos sensíveis, mas ainda assim diferente, pois os demais mictórios são usados como meros utensílios, enquanto o mictório usado por Duchamp é considerado uma obra de arte. Este fenômeno leva Danto a refletir sobre o que diferencia A Fonte de um outro mictório qualquer da mesma linha de produção. A diferença não pode estar na esfera do sensível, já que eles são idênticos. A diferença diz respeito a uma questão filosófica. Portanto, o que define o status de arte é, neste caso, a própria definição filosófica da arte. Note-se que a conclusão sobre essência da arte não foi imposta de fora, mas foi colocada em evidência pela própria obra. Neste momento a arte alcançou enfim o seu objetivo histórico: ela encontrou a sua própria definição, sendo sujeito e objeto de si mesma e, com isso, alcançou ao termo da sua história.

É importante deixar claro que, de acordo com o filósofo, o fim da história da arte não significa o desaparecimento da arte. A arte continuará a ser produzida, “mas – nas palavras de Danto – os fazedores de arte, vivendo no que gosto de chamar período ‘pós-histórico’ da arte, trarão à existência obras que carecem de importância ou do significado histórico que esperamos delas desde muito tempo” (p.148). É claro que não precisamos aceitar esta teoria, afinal de contas, como o próprio autor reconhece, ela “representa uma forma de descredenciamento filosófico da arte” (p. 120) descrito por ele mesmo e, como tal, ela deve ser vista com desconfiança.

Porém, não deixa de ser convidativo refletir sobre o que é a arte no período pós-histórico. Ainda mais quando percebemos semelhanças entre o pensamento de Danto e outras tentativas de se compreender o regime contemporâneo das artes, como o faz a crítica argentina Josefina Ludmer em relação à literatura quando propõe a ideia de pós-autonomia. Essa semelhança aponta para a existência de um campo discursivo que, apesar de heterogêneo, vê o contemporâneo a partir de uma narrativa de rompimento ou superação da lógica que marcou a arte moderna. Se isso significa que vivemos no período pós-histórico da arte, eu não saberia responder. A pergunta que serve de título a este texto fica, portanto, em aberto, como um convite à reflexão.

Autofiguração: uma chave possível

CAPA DAS BOOTY

Por Nívia Maria Santos Silva

Na cena da contemporaneidade, surgem diversos termos que se apresentam resistentes a uma catalogação taxonômica rígida, escapando dos limites que a classificação de gênero impõe. É assim, por exemplo, com a autoficção e com a noção de antibiografia, criada pela teórica argentina Leonor Arfuch. Dentre as várias possibilidades investigativas para pensar as narrativas de si, a autofiguração emerge como uma modalidade de autorrepresentação.

A autofiguração, no entanto, não é um gênero, mas uma estratégia textual presente nas narrativas de si. Vale salientar que existem formas de autofiguração que fogem ao gênero das autobiografias e se apresentam em outros “momentos autobiográficos”. Nesses momentos, as ideias do autor sobre ato poético, suas leituras, seus juízos sobre outros escritores, a forma de assumir sua prática literária são elementos que servem para a construção das imagens de autor e devem ser considerados tanto como uma “apresentação muito cuidadosa de si”, que se vale da proeminência do espaço biográfico na cena contemporânea conforme o analisa Arfuch, quanto como uma estratégia de ataque e defesa, que, uma vez problematizada, pode oferecer rendimentos críticos.

Esses “momentos biográficos” estão cada vez mais dispersos em entrevistas, depoimentos, sites e blogs. São neles que as marcas da autofiguração mais são evidenciadas, por serem um espaço de presença e autorreferencialidade, demarcando posições, ideologias e deixando manifestas informações biográficas, pelo menos aquelas que o autor deliberadamente deixa saber.

A entrevista é um dos gêneros que mais vem atribuindo autenticidade à autorrepresentação. Ela se tornou um eficaz veículo da autofiguração porque a imprensa é um agente de consagração e um gerador de capital simbólico (prestígio), o que legitima os ditos sobre si. Nessas instâncias da enunciação sobre si, o entrevistado, entre o que anuncia e o que omite, entre o que esquece e o que lhe escapa, vai inventando vidas que passarão a ser vistas como sua vida.

Por isso tudo, a autofiguração é uma chave possível de estudo do poeta Bruno Tolentino. Sua autofiguração de polemista, tão escrachada quanto presumida, deixava perceber de forma subjacente, um intelectual de amplas leituras e de postura crítica bem definida. Ela foi, sobretudo, uma tomada de posição já que cada entrevista representava também uma reivindicação, um manifesto, uma crítica a determinados grupos e posturas

literárias. Na entrevista, encontrava sua tribuna, um meio de fazer-se ouvir e difundir suas ideias sobre a filosofia da forma, sobre o ofício de poeta e sobre aquilo que dizia ser a luta da sua vida inteira: separar a realidade da ideia que se tem sobre ela.

Nesta época em que o sujeito tem um lugar de enunciação privilegiado, como chama a atenção a critica argentina Beatriz Sarlo a respeito da guinada subjetiva contemporânea, Tolentino soube chamar atenção para si, e, nessa preocupação por forjar a si próprio, tomou a posição do poeta escolhido e incompreendido. Para nós, a elaboração dessa figura autoral é ferramenta indispensável para efetivação de seu projeto literário, por esse motivo seu estudo se torna produtivo.

ADRIANA LISBOA E OS ESPAÇOS DE PROFISSIONALIZAÇÃO

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Por Neila Brasil

Neste post, eu gostaria de comentar brevemente a trajetória da escritora brasileira Adriana Lisboa considerando a internacionalização de sua carreira. Em entrevista concedida ao site da Saraiva/conteúdo, a autora afirmou: “Pensar em ser escritora era como pensar em ser astronauta, uma coisa assim um pouco fora da realidade. Eu não sabia que era uma profissão viável, possível. Fui fazer uma outra coisa também não muito viável, que é trabalhar com música”. Com formação nessa área, a autora viu na pós-graduação em Letras na UERJ a possibilidade de enveredar pela carreira de escritora. O romance Um beijo de colombina é apresentado como uma dissertação de mestrado. Visto em perspectiva, essa escolha parece indicar o reconhecimento da academia como um caminho possível de abertura para a afirmação de uma carreira como escritor.

Hoje, os livros de Adriana Lisboa encontram tradução em dezessete países, sendo uma das poucas autoras brasileiras traduzidas nos Estados Unidos, onde a autora vive atualmente. O fato de ser uma escritora contemporânea que alcança a internacionalização de seu nome pode estar relacionado à questão de ser representada por agências literárias como as de Lucia Riff (Agência Riff) e pela agente Nicole Witt (Mertin Literary Agency). Vale lembrar que nos Estados Unidos, por exemplo, a maior parte das editoras não recebe originais diretamente dos autores, que precisam ser representados por agentes literários.

Também é possível arriscar que o recebimento de prêmios literários seja um incremento importante de consolidação do nome da autora, já que Lisboa foi premiada com bolsas da Fundação Japão e da Fundação Biblioteca Nacional do Livro, para criação dos romances Rakushisha e Um beijo de colombina.

Entrevistas, resenhas, fotografias e artigos sobre Adriana Lisboa e sua obra são encontrados facilmente em materiais virtuais disponíveis na internet. A autora ainda conta com o site, atualizado recentemente, em que o leitor poderá encontrar informações sobre seus livros, biografia e contato. A obra de Lisboa vem recebendo maior atenção de estudiosos e críticos literários que desejam conhecer a literatura contemporânea. Sua obra tem sido alvo de diversos artigos, críticas e resenhas, sendo estudada em universidades brasileiras e algumas universidades nos Estados Unidos. Partindo dessa constatação, podemos afirmar que os caminhos trilhados por Adriana Lisboa, quer seja na construção da sua literatura, quer seja na recepção crítica de seus textos, têm contribuído para a consolidação da sua carreira tanto no Brasil quanto no exterior.