Arquivo do autor:Debora Molina

O maravilhoso mundo dos quadrinhos

Por Taís Veloso

Desvendando os quadrinhos é a tradução do livro Understanding comics , de  Scott McCloud, um teórico dos quadrinhos, que foi publicado em 1993 nos EUA pela editora Tundra Publishing e no Brasil em 1995 pela editora M.Books. Trata-se de uma interessante obra metalinguística, já que o livro explora, por meio da própria linguagem em quadrinhos, não só o surgimento dessa arte, mas suas técnicas.

O primeiro capítulo é uma apresentação de como o autor passou a gostar de quadrinhos. Segundo conta, quando criança, achava os quadrinhos nada mais, nada menos que revistas coloridas e idiotas, mas na pré-adolescência,  McCloud se tornou não apenas um leitor assíduo dessas histórias, como decidiu virar desenhista. Parte do que o livro é está anunciado em seu título já que seu conteúdo tentar mostrar em linguagem acessível como funciona essa arte.

Uma das primeiras definições para os quadrinhos aparece na forma de um verbete, logo nos primeiros capítulos do livro: 1. Imagens pictóricas e outras em sequência deliberada destinadas a transmitir informações e ou a produzir uma resposta no espectador.” (MCCLOUD, 2004, p.9) .

McCloud distingue ícones pictóricos de não-pictóricos. A bandeira do Brasil, por exemplo, seria um ícone não-pictórico, já que representa a ideia invisível de uma nacionalidade. Outro exemplo disso seria o símbolo do Yin Yang, que representa uma ideia religiosa e filosófica de dualidade, o que dá à imagem uma possível representação convencional dessa ideia. Apesar de os desenhos dos personagens em quadrinhos serem representações também, são considerados ícones pictóricos pelo autor, pois constituem uma realidade própria ao universo dos quadrinhos, como Tin-Tin ou Charlie Brown, ganhando assim sua “existência de papel”, através dos traços, do próprio desenho.  Assim, o desenho do personagem McCloud representado no livro não está baseado na identidade com o autor empírico, sendo apenas um avatar distanciado dele, uma representação, ou nos termos do livro, um ícone pictórico.

taís

Uma boa parte do livro dedica-se a pensar na relação entre a palavra e a imagem: “É preciso conhecimento especializado para decodificar os símbolos abstratos da linguagem. Quando as imagens são mais abstraídas da “realidade”, requerem maiores níveis de percepção como as palavras. Quando as palavras são mais audaciosas, mais diretas, requerem níveis inferiores de percepção e são recebidas com mais rapidez como imagens.” (MCCLOUD, 2004, p.49)

O livro interessa não apenas a admiradores ou pesquisadores de quadrinhos como também a atuais e futuros quadrinistas. Nele, podemos encontrar muitas dicas para se fazer um quadrinho, descobrir um estilo ou apenas mudar o olhar de quem vê os desenhos em quadrinhos como uma arte menor.

MCCLOUD, Scott. Desvendando os quadrinhos. M.Books, São Paulo, 2004.

 O autor também mantém um site. Basta clicar em http://scottmccloud.com/

Autobiografia + ficção= autoficção

Por Nilo Caciel.

Autobiografia

O escritor e crítico literário Silvano Santiago lançou no primeiro semestre deste ano pela Companhia das Letras Mil Rosas Roubadas, romance biográfico que narra sua amizade com o produtor musical Ezequiel Neves, morto em 2010. A ideia do romance surgiu com a morte do produtor, uma tentativa de ‘‘resgatar a memória afetiva que se perde’’, disse o escritor ao Globo. Ele explica ter escolhido o gênero romance para ter mais liberdade.

Obras como esta se mostram uma forte tendência na literatura contemporânea. A literatura como instrumento de documentação da realidade não é novidade, porém hoje é perceptível uma dinâmica especial na maneira como os autores brincam com a mistura entre realidade e ficção na divulgação dos seus livros e na construção da sua persona pública.

Meu projeto de pesquisa está interessado em compreender melhor o conceito de autoficção e para isso escolhi como objeto de estudo uma escritora francesa, Lolita Pille.Ela se lançou ao mercado aos 21 anos em 2003 com Hell. O romance narra a rotina da personagem-título, uma jovem rica que vive na área nobre de Paris cuja rotina se resume a festas, álcool e drogas. O texto se constrói como um relato da protagonista, que discorre com cinismo o vazio da sua existência.

O livro rapidamente se tornou um best-seller na França e logo foi traduzido em outras línguas. Com todo o sucesso, uma adaptação cinematográfica foi feita em 2006. Grande parte do buzz em volta do livro e da autora se deu por supostos elementos biográficos presentes na história.

auto

Lolita declarou em entrevistas já ter abusado de álcool e drogas e em todas as suas aparições públicas ela não hesita em exibir comportamentos típicos da sua protagonista. Ela sempre está com um cigarro em mãos e já disse nunca acordar antes das 16h. Embora tenha negado que Hell seja uma autobiografia, confessou ser baseado na sua rotina.

Exemplos como o Pille e Santiago demonstram o experimento com a forma do romances apostando em diferentes ‘’níveis de ficcionalização’’ e apontam cada vez mais a autoficção como uma tendência marcante na literatura contemporânea. Assim, é possível perceber que há muito espaço para investigação na área a respeito das fronteiras entre gêneros biográficos e ficcionais.

Muitas vezes relacionada ao egocentrismo observado no nosso tempo, a autoficção parece estar longe de se desgastar, caracterizando uma geração que parece cada vez mais prezar a individualização das histórias.

Entrevista de Lolita Pille à Revista Istoé 

Bruno Tolentino: o ilustre desconhecido

Por Nívia Maria Santos Silva

Você já ouviu falar em Bruno Tolentino? Poeta, ensaísta e tradutor brasileiro, Bruno Tolentino marcou o debate literário no último quartel do século XX e nos fez lembrar que os domínios da literatura são compostos por conflitos não só literários, mas, principalmente, ideológicos e eletivos.

Nascido no Rio de Janeiro em 12 de novembro de 1940 e dono de uma “personalidade solar” – como dissera o crítico Claudio Leal (1) –, esse carioca arrebatou o prêmio Revelação do Autor (em 1960), Casimiro de Abreu (em 1974), Cruz e Souza (em 1995), Abgar Renault (em 1996), Senador Ermírio de Moraes (em 2003) e não um nem dois, mas três prêmios Jabuti (em 1995, 2003 e 2007).

Lançou livros não só no Brasil, mas na França e na Inglaterra. Viveu 30 anos na Europa onde foi editor da Oxford Poetry Now, amigo de grandes nomes da literatura mundial e prisioneiro por 22 meses em Dartmoor. Voltando a terras brasileiras na década de 90 do século passado, foi editor da Revista República e principal crítico dos poetas concretistas (e afins), contra quem disparou toda sua verve polemista pelos quatros cantos da Literatura Brasileira.

Sobretudo, tanto aqui quanto lá, foi poeta, e poeta de um lirismo franco e intelectualizado. Com seus metros alexandrinos, seus sonetos e a terza rima a la Dante, trouxe de volta, nas palavras de Arnaldo Jabor (2), a “peste clássica”. Defensor do “mundo como tal”, declarava combater o “mundo como ideia” e encontrava nesse embate a justificativa para o seu fazer poético.

BRUNO TOLETINO FOTO

Alvos de minhas pesquisas, Tolentino e sua posição combatente no campo de produção cultural são objetos de investigação de minha tese de doutorado. Nela, parto do pressuposto que as declarações de Bruno, suas entrevistas e, até mesmo, os seus livros, mais explicitamente o livro Os sapos de ontem, são “tomadas de posição” que partem de seu “capital simbólico”, “capital social” e “capital cultural” para confrontar o já estabelecido no campo literário brasileiro.

Conheci-o pessoalmente em 2001, faleceu em 2007. Dono de uma memória privilegiada, de um vasto conhecimento literário e de um humor ácido e envolvente, Bruno Tolentino é aquele tipo de poeta de belos poemas e muita história para contar.

Mas, por enquanto, continua sendo aquele ilustre desconhecido.

Para conhecer não só suas poesias, mas também a produção crítica, as traduções de Bruno Tolentino e muito do que a crítica especializada escreveu sobre ele, vale ir ao sítio:  Tolentino.

(1) LEAL, Claudio. Bruno Tolentino, o poeta silenciado. Disponível em http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI1812105-EI6595,00.html Acesso em 10 maio 2014.

(2) O texto de Arnaldo Jabor, Tolentino traz de volta a peste clássica que foi publicado no jornal Folha de São Paulo em 19 de julho de 1994, está reproduzido na íntegra na contracapa do livro Os sapos de ontem (TOLENTINO, Bruno. Os sapos de ontem. Rio de Janeiro: Editora Diadorim, 1995)

A narrativa digital

Por Elionai do Vale

A capacidade de contar histórias parece mais viva do que nunca hoje na era digital. Basta ver como os jogos de video game apelam a formas mais narrativas. A literatura no meio digital conecta autores, leitores, programadores, espectadores, webdesigner e estende-se a blogs, videoblogs, videogames, e-books, twitters.

Desse modo, pensar no processo de configuração da narrativa eletrônica, também chamada de narrativa digital ou narrativa interativa, é fundamental para se compreender o conjunto de ferramentas que constitui o modo de contar histórias hoje. Mas o que é narrativa digital?

Encontramos uma tentativa de caracterização no livro da pesquisadora americana Janet Murray, Hamlet no Holodeck. O futuro da narrativa no ciberespaço (2003).  Aí Murray aposta que o modo de contar histórias que nasce com os computadores é de natureza procedimental, isto é, uma obra procedimental é uma narrativa que apresenta regras e possibilidades para a ação do leitor a fim de pavimentar o caminho para um pacto imersivo de leitura.

A literatura contemporânea recente arriscou-se na narrativa digital a partir   do lançamento em papel e na tela do computador do livro-jogo de Simone Campos, Owned.  A proposta é que o leitor sinta-se como num jogo de vídeo game e assuma a identidade de André, personagem principal, fazendo as escolhas por ele (as opções dizem para você sair da página 85 e pular para a página 210 ou escolher entre pegar um amuleto, que vai ser incorporado à trama, ou optar por fazer com que o personagem ignore, por exemplo, um e-mail que recebeu).

Histórias imersivas nos transportam a mundos encantados, essa é uma caracteristica de toda ficção, personagens como o Sr. Darcy de Austen atravessaram séculos por sua compelxidade.  Mas nos ambientes digitais novas oportunidades ativam outras possibilidades para o estímulo da imaginação.  Acredita-se que a realidade virtual ofereça novo tipo de participação mais ativa do leitor.

A capacidade de manter ativo o leitor, que é tratado nas narrativas digitais como um interator, é apontada como fundamental ao caráter imersivo estimulado pelo ambiente Com a narrativa digital os leitores atuam literalmente para colocar em prática novas táticas narrativas, já que o interator tem a possibilidade, concedida por inúmeros procedimentos que orientam suas escolhas durante a leitura, de explorar  a aventura de descobrir novas trilhas na milenar arte de contar histórias.

Se investimos no estudo das narrativas digitais, percebemos que ela oferece novas possibilidades estéticas e abre novos horizontes para a investigação sobre a narrativa literária hoje.

“Pedro” e suas aparições literárias

LEMEBEL 2

Eder Porto

Considerado pelo amigo e escritor Roberto Bolaño “o maior poeta de sua geração apesar de não ter escrito poemas”, Pedro Lemebel é muito pouco conhecido no Brasil. Inédito ainda em português, os poucos estudos acadêmicos sobre o autor, costumam compará-lo ao brasileiro Caio Fernando Abreu. O autor e performer chileno nasceu em 1952 e tem um longo histórico como ativista comunista e gay.  Na literatura, percebem-se várias referências autobiográficas e diversas vozes marginalizadas, seja o travesti, o índio da periferia, os perseguidos ou desaparecidos políticos.

  Em outubro do ano passado, Pedro Lemebel esteve em São Paulo e fez uma participação na Balada Literária/Festival Mix. Na ocasião, apareceu bem ao seu estilo – travestido, maquiado e “afiado” –, fazendo diversas piadas com a palavra “bicha”. No Brasil, ao saber sobre a polêmica que girava em torno da questão parlamentar da “cura gay”, Lemebel  disse:  “me curar seria tão impossível como domar uma anaconda”.

Em minha dissertação de mestrado, estudo o trabalho do autor chileno e investigo a possibilidade de analisar a performance pública do escritor em comparação com a representação de um personagem criado por ele mesmo em suas crônicas.

Lemebel sempre se mostra avesso a entrevistas, desconfiado e temperamental, ao mesmo tempo que é extremamente irreverente, desbocado e pícaro, tirando muitas gargalhadas nas conferências que dá, diante de auditórios lotados e atentos.  Essa performance pública é  (auto)ficcionalizada no livro Adiós Mariquita Linda (2004). Para confirmar essa autofiguração de Lemebel como escritor, escolhi a crônica Welcome San Felipe. Nela, Lemebel traça um retrato de “Pedro”, escritor convidado a participar de um evento literário numa cidade do interior, com banquete e recepção pelas autoridades locais.  É interessante notar como a representação do personagem é muito próxima à performance do próprio Lemebel  em eventos literários dos quais participa:

“[…] e se deu início a minha Crônica Show. Para quem nunca viu esse circo pobre, lhes conto que eu faço uma espécie de animação com leitura, vídeo e a música que vai tocando a Africa Sound enquanto desfilam os temas da ironia política (risadas), homossexualidades múltiplas (atenção), estéticas bastardas (emoção), para rematar com os direitos humanos (quase sempre os olhos se cristalizam com este doloroso tema). E então vem os aplausos, os vivas, as flores. E eu emocionado atiro beijos de chantilly para a eufórica plateia.” (LEMEBEL, 2004, p. 44)

Na mesma crônica, “Pedro” aceita participar do evento, mas se nega a figurar em público ao lado do prefeito da cidade  (“não cumprimento fascistas”, diz) e, como a assessora não consegue impedir o encontro, ele se irrita, puxa a toalha de uma mesa e derruba todo o churrasco que estava sendo servido, abandonando o local dramaticamente para desapontamento da comunidade.

 O que se percebe, em geral, é a construção de uma figura de autor (personagem) irresponsável e debochado, que (aparentemente) se ridiculariza, não leva (aparentemente) sua arte a sério e reforça a imagem do escritor-celebridade genioso (realidade, ficção ou ironia?),  ao mesmo tempo em que torce o nariz para as convenções sociais do seu meio e para a alta posição de literato.

LEMEBEL 4 (1)

LEMEBEL, Pedro. Adiós Maqiruita Linda. Debolsillo: Santiago, 2007.

O que eu Diria: um breve relato sobre a inquieta produção contemporânea.

bot 9

Débora Molina

Nos dias atuais é quase impossível encontrarmos alguém que não use o computador, não tenha acesso à internet e não tenha uma conta em alguma rede social. É muito provável que ao encontrarmos alguém que há muito não víamos, nossa conversa seja encerrada com um: “Me adicione no facebook” ou “você tem Whatsapp?”.  Essas são só pequenas ilustrações sobre como a tecnologia mudou nossas vidas… há 10 anos atrás, a única opção de reatar alguns laços distantes eram os contatos marcados de canetas nas nossas agendas telefônicas.

Se a tecnologia parece ter mudado nossa concepção de tempo e de relação pessoal, entre tantas outras coisas, porque não levarmos em conta que esta mesma tecnologia possa estar modificando o campo das artes?

Pois bem, as veias cyber cinéticas pulsaram no campo literário brasileiro. No final de 2013 um curioso aplicativo chamado What would i say? Se popularizou no mundo das letras. O bot (robô) é um aplicativo que escreve frases a partir da escolha aletória de palavras retiradas do nosso histórico de conversas e postagens do facebook. Geralmente, a brincadeira com o bot gera frases bastante criativas, como no exemplo abaixo:

bot 13

E, justamente por essa criatividade acidental, o bot virou ferramenta de escrita de alguns poetas e escritores brasileiros. Como no caso de Ismar Tirelli Neto que declarou para o caderno literário do O globo Prosa & Verso que o bot era um eco distorcido de sua própria voz, já que tornou sua escrita algo mais inventivo do que a postagem original. Embora o bot demonstre ser um recurso interessante para novas perspectivas da literatura brasileira contemporânea, o aplicativo é visto como algo que soa como brincadeira, coisa que não deve se misturar com Literatura, que é coisa séria.

Em dezembro de 2013 o caderno Prosa & Verso do jornal O globo publicou um artigo chamado ‘literatura do acaso: as experiências com o bot What would i say’. Escrito pelo jornalista e também escritor de literatura brasileira contemporânea Bolívar Torres, o artigo traz a discussão sobre o uso do bot na produção literária contemporânea, e a reflexão sobre as concepções já inscritas no campo como identidade autoral e escrita literária.

Para o professor Frederic Coelho (PUC – Rio), o aplicativo causa o esvaziamento do autor, pois entende que o bot escreve novas sentenças a partir do que o autor já escreveu, o autor não é o escritor do discurso, isso é mérito do aplicativo. Argumenta ainda que o recurso é só um remix das palavras, o ‘recorta e cola’, parecido com o poema dadaísta do início do século XX.

Muitos autores utilizaram o aplicativo para fazer literatura, como no caso de Victor Heringer, que escreveu o poema “bot-macumba” que pode ser lido por meio do vídeo disponibilizado pelo site da Globo vídeos:

http://oglobo.globo.com/videos/v/victor-heringer-le-o-poema-bot-macumba/3015223/

Heringer defende que:

Cada geração tem seus meios de arejar a linguagem — diz Heringer. — Dispor palavras embaçadas de modo a ganharem vida nova. Ao misturar nossas próprias palavras, o bot coloca ainda outro problema: quão parecidos somos com o robô que fala? O quanto essas “nossas” palavras rearrumadas expressam o “nosso eu”? É uma questão esquisita para a literatura, até hoje considerada, em grande medida, expressão da alma. Dependendo das respostas dadas às perguntas acima, poderíamos muito bem concluir que a alma do homem é algorítmica. Ou, como Tzara e os dadaístas, melhor seria transitar nessa fronteira cada vez mais confusa entre

Heringuer apresenta uma discussão pertinente: Nossa subjetividade está cada vez mais entrelaçada ao mundo virtual, estamos conectados o tempo todo com nossos aplicativos para fotos, vídeos, características de humor, etc. Se o mundo e as relações estão mudando com a tecnologia, porque não pensar que a literatura também esteja caminhando para além do mundo do livro, do mundo impresso, para um mundo em expansão?

bot 24

 

 

Karl Ove e sua vida

Karl Over Knausgard- Revista Mapa ed. 1 – 2013

Marcos Torres

Recebi duas edições da Revista Mapa, de Curitiba(ed.nov/dez 2013 e ed. jan/fev 2014), uma revista bimestral, que pode ser enviada gratuitamente a todos que escreverem para os editores solicitando a publicação. A reportagem que mais me chamou atenção no primeiro número da revista diz respeito ao mais recente fenômeno mundial de vendas, o norueguês Karl Ove Knausgard.

Karl Ove já vendeu mais de meio milhão de livros, superando o volume de vendas de muitos escritores dentro do mercado americano, inglês ou alemão. Mas a que será que se deve tamanha repercussão? A publicação do primeiro volume, além de um mal-estar familiar generalizado, rendeu a Karl Ove um processo judicial pelo uso de detalhes biográficos expondo a família Knausgard aos holofotes da mídia que quis investigar as figuras de carne e osso por trás do relato.

Não deixa de ser surpreendente também o fato de que corre o boato que as empresas na Noruega foram obrigadas a instituir os chamados “dias sem Knausgard”, proibindo os funcionários de lerem ou comentarem durante a jornada de trabalho o livro de Karl Ove.

Mas o mais interessante é a tensão criada pela narrativa entre vida e ficção. Tematizando a saga autobiográfica do autor (seis volumes, um total de 3600 páginas, cujo primeiro volume intitulado A Morte do Pai já foi publicado no Brasil pela Companhia das Letras, o texto de Irinêo Neto traz elementos importantes para pensar a produção literária contemporânea. Além de retomar as inquietações a respeito da noção de gênero literário e suas formas cambiantes, fala-se na imbricação entre vida e obra, entre realidade e ficção e aposta-se que Karl Ove propõe a inversão do paradigma do pacto autobiográfico conforme sustentado por Philippe Lejeune. Para Lejeune, o leitor deveria aceitar o pacto de leitura conforme o gênero literário apresentado pelo autor, mas Karl Ove parece inverter ou propor outro pacto e pede para o leitor decidir em qual gênero seus livros devem se encaixar: autobiografia ou ficção?

Vale a pena arriscar um palpite nessa discussão, pois depois da leitura da reportagem de Irinêo Netto e de A Morte do Pai de Karl Ove você vai se dar conta de que alguma coisa está mudando em relação àquilo que, até há bem pouco tempo, chamávamos de ficção.

NETTO, Irinêo Baptista. Ele confia em você. Revista Mapa, Curitiba, p.
4-9, nov/dez 2013.

Graphic novels ou as boas e velhas histórias em quadrinhos

Taís Veloso

Já faz algum tempo que não é mais possível afirmar que a leitura de histórias em quadrinhos deve ser indicada apenas para crianças e pessoas com “baixo nível cultural” por conta de sua facilidade e de sua acentuada linguagem gráfica e cenários coloridos. Os mais recentes estudos sobre o gênero já reconhecem que é necessário um grande domínio das linguagens verbal e não-verbal e um bom conhecimento empírico para decifrar e entender tudo o que é comunicado naqueles traços.

Como Eisner (2005, p. 8) afirma, a partir dos anos 60, pode-se perceber que os quadrinhos passaram a buscar temas que eram típicos do cinema e do teatro, lidos também na literatura prosaica e lírica. Hoje podemos falar do advento das graphic novels, que tiveram um grande impacto no mercado cultural. Quanto a este novo cenário, Eisner (2005, p. 8) sugere que “As graphic novels com os chamados ‘temas adultos’ proliferaram e a idade média mudou, fazendo com que o mercado interessado em inovações e temas adultos se expandisse”.

Podemos citar dois exemplos de autores que trabalham desta forma: o brasileiro Lourenço Mutarelli, que, além de cartunista, já atuou como cineasta, roteirista e autor de romances, e a francesa Julie Maroh, que atualmente se dedica aos quadrinhos.

Ambos possuem estilos muito distintos, principalmente nos livros a serem abordados aqui: Desgraçados, do brasileiro, e Azul é a cor mais quente, título traduzido da obra da francesa. Enquanto Maroh buscou retratar as relações adultas e a questão da sexualidade e de gênero de maneira romântica e leve, Mutarelli traz o tema das relações humanas e da imprevisibilidade da vida de maneira cruel e esmagadora. Tudo isso é perceptível não apenas através da leitura dos diálogos, mas de como observamos o traço, a tipografia e a colorização das páginas. No caso de Mutarelli, observamos um constante preto e branco e personagens desenhados de maneira crua e um tanto disforme. Já no texto de Maroh, vemos a presença da cor azul e um traço mais leve, próximo de proporções humanas reais.

Com isso, pode-se ter uma rápida visão da temática e da produção destas obras. Fica ao leitor do blog a indicação de leitura de ambos os autores, para que possam, assim, tirar as suas próprias conclusões.

desgraçados

Desgraçados – Lourenço Mutarelli

MIOLO_azul_NOVO_FINAL.indd

Azul é cor mais quente – Julie Maroh

Pesquisador nos espaços: sobre o IV Simpósio memória, (auto) biografia e documentação narrativa


Simpósio
(Conferência de abertura: “Documentação narrativa e investigação-formação-ação em educação”)

Rodrigo Estevão

No início do mês de abril, aconteceu, aqui, em Salvador, o IV Simpósio Memória, (Auto) Biografia e Documentação Narrativa, promovido pelo grupo de pesquisa GRAFHO (Grupo de Pesquisa Autobiografia, Formação e História Oral) da Universidade do Estado da Bahia.

A conferência de abertura ficou a cargo de Daniel Hugo Suárez (UBA), aconteceu em espanhol e o referido professor defendeu a adoção de um novo dispositivo pedagógico, a documentação narrativa, que, segundo o pesquisador, fomenta uma relação horizontal – portanto contra-hegemônica e descolonializadora – dentro dos espaços educacionais diversos.

A organização do evento previu discussão em vários eixos relacionados ao tema principal do evento. O Eixo Temático III: Documentação Narrativa, escrita de si e formação apresentou comunicação de pesquisadores que desenvolvem pesquisas afins a meus interesses. Participando da Sessão 8, coordenada por Carmem Sanches Sampaio (UNIRIO), conheci, além de outras propostas interessantíssimas, um pouco do trabalho de Jamile Maria Nascimento de Assis, estudante de pós-graduação da – vejam que interessante – UFBA. Em sua comunicação, A visão da Cordilheira: Daniel Galera e o campo literário, Jamile lança um olhar sobre a construção de imagens do campo literário no romance Cordilheira. Em uma leitura que se aproxima da minha em muitos momentos, Jamile não somente observa como vai se desdobrando o campo em volta da personagem escritora Anita, mas busca assimilar as experiências da personagem com as experiências de Daniel Galera (autor do livro) enquanto elemento do campo. Estratégias de inserção no campo e as perspectivas de literatura de ambos são contrapostas na análise de Jamile, o que me fez acreditar, mais ainda, na necessidade de um diálogo entre a minha pesquisa e o trabalho que a pós-graduanda vem realizando.

Não sei se, como apontado, Galera vem a ser um autor de sucesso (o sucesso me parece uma invenção do mercado). Contudo, é inegável que cada vez mais se comenta sobre o autor nos espaços acadêmicos. Penso, portanto, se isso significaria algo à figura de escritor de Daniel Galera. Acredito que vale a especulação.

Reprodução – Bernardo Carvalho

NEWS

Marcos Torres

Recentemente, Bernardo Carvalho concedeu uma entrevista para a Globonews Literatura, sobre seu mais novo livro, Reprodução, publicado pela Companhia das Letras em 2013.

Nela, o autor diz nunca ter gostado de a literatura estar atrelada à política, mas, como afirma que o contexto atual pode ser caracterizado como o de um novo fascismo, Carvalho defende um livro mais político. Diante de um mundo confuso em que, segundo o autor, não sabemos direito onde mora o perigo, a justificativa para um livro mais político está na proliferação, principalmente pela internet, de um discurso dissimulado e carregado de fascismo, racismo, anti-semitismo, anti-arabismo etc.

Para Carvalho a internet, que, aparentemente, alardeia a liberdade e a democracia, desconstruindo hierarquias, propiciou, na verdade, o fim da democracia e com ela o fim da privacidade e da vida privada , propalando um sistema de controle absoluto, de pura publicidade.

No livro, o narrador é um sujeito que segue para o aeroporto, mas, ao chegar, é preso na área de embarque; o enredo trata de um trabalhador do mercado financeiro, um estudante de chinês, que perdeu o emprego, perdeu a mulher, e, a partir de um discurso paranoico, acredita que a China será a nova dona do poder global. O texto traz a sensação de ser uma sequência de três monólogos sem um interlocutor, mas na verdade trata-se de um diálogo com um delegado que nunca aparece na história, não há descrição detalhada nem de aspectos físicos, nem psicológicos da personagem. Segundo Carvalho, esse delegado representa certa opacidade e o contrário do mundo da visibilidade absoluta, onde tudo é dito e tudo é mostrado no mundo em que vivemos hoje, e para o qual a gente cada vez mais vai se encaminhando. Por outro lado, o personagem sem nome e que fala quase sem parar é o representante desse fascismo disfarçado de outro tipo de discurso e com isso difícil de ser combatido.

Para Carvalho, o estudante de chinês é a representação desse tipo de discurso que está estreitamente vinculado à internet, à sensação de visibilidade absoluta e à perda da privacidade, onde tudo é mostrado e nada é mostrado, tudo é dito e nada é dito e, portanto, um discurso contraditório. E, como está no próprio título do livro, tudo não passa de uma mera reprodução.

Não sei, mas acho que talvez seja interessante a gente se apropriar deste último termo para pensar sobre a produção literária contemporânea e suas diferentes formas de subjetivação. Assim como discutir se a relação entre Literatura e Política ainda tem alguma validade dentro da produção atual.

Assista a entrevista AQUI!