As redes sociais e a autoficção

João Matos

Créditos da imagem: R.B.Kitaj, The Man on the Ceilling, 1989.

Como já tematizei aqui no blog, investigo o conceito de autoficção e o romance de Tiago Ferro, O pai da menina morta. Durante a pesquisa, me chamou a atenção em especial a relação de Ferro com as redes sociais. Em muitos casos, o espaço virtual se torna uma extensão da vida privada. Profissionalmente, a internet ajuda na promoção e divulgação das obras de autores contemporâneos e com Ferro não é diferente.

Ferro utilizou suas redes sociais em 2016 para expor a tragédia familiar que enfrentava à época – a morte de sua filha, vítima de uma gripe. A partir daí, Ferro relatou ter se sentido exausto por conta da exposição de sua tragédia familiar e reafirmou o desejo de não se tornar “o pai da garota falecida”.

Algo dessa rejeição está presente na narrativa de Ferro, que não renega sua tragédia e sua experiência de luto constante, mas também não reduz a imagem de seu narrador ao “pai da menina morta”, como tampouco sua filha é reduzida à condição de vítima. Ferro demonstra, tanto em sua obra quanto nas suas considerações a respeito da mesma, um desejo de homenagear sua filha.

Embora não negue a relação de sua obra com a vida real, Ferro rejeita a associação com o neologismo francês “autoficção”Essa posição do autor é tão ambígua quanto o próprio termo “autoficção”, pois Ferro não aparenta querer que sua autobiografia esteja diretamente associada a seu projeto literário, embora seu romance de estreia esteja diretamente relacionado à tragédia pessoal do autor.

O autor não quer ser apenas o pai da garota falecida, mas também não quer deixar de homenageá-la. Não quer associar sua obra ao conceito de autoficção, embora os gestos do autor, tanto em suas redes sociais como em sua própria obra, apontem para uma complexa relação entre vida e ficção.

Talvez por isso a relação de Ferro com as redes sociais tenha mudado.

O suporte virtual, que antes serviu como espaço para compartilhar a dolorosa experiência de perder a filha e posteriormente como rascunho para a produção de seu texto Já não era mais terça-feira, mas também não era quarta, publicado na Revista Piauí e de seu romance O pai da menina morta, agora é apenas um espaço aberto para compartilhar publicações alheias e divulgar eventos e notícias relacionadas à sua carreira como escritor. 

Me interessa analisar essa presença/ausência, esse modo de ocupar as redes, como se o autor estivesse ausente por meio de uma presença receosa com a exposição inicial de um fato trágico da sua vida, porque identifico essa instabilidade no conceito de autoficção, mas porque considero que as redes são um meio importante para pensar hoje novas formas de se fazer ficção, de se pensar a autobiografia, as figurações de si e os limites entre essa “realidade” e a ficção.

2 Respostas para “As redes sociais e a autoficção

  1. Excelente análise dessas relações, João! Parabéns 🙂

  2. Muito bom o texto! Chama a atenção o fato de o enredo da obra estar nas postagens e numa publicação da imprensa, restando ao livro a descrição de experiências daquilo que, comumente, acostumamo-nos a chamar de pós-luto. O livro parece deixar de ser a matriz narrativa da trágica história de sua filha para se transformar em algo complementar ao drama já relatado em outras plataformas. Parabéns

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