Commomplace books, cadernos e anotações

Carolina Coutinho

Créditos da imagem: Página do commonplace book de Charles Dodgson. Fonte: Harry Ransom Center.

Em um post recente, comentei sobre as aproximações entre a anotação e o romance propostas por Roland Barthes ao explorar o haicai japonês em seu curso sobre A preparação do romance. Meu interesse na anotação e no diário me levou até a prática dos commonplace books e à reflexão sobre como essa forma antiga pode contribuir para a investigação sobre o uso da anotação em diferentes atividades de escrita.

Os “livros de lugar-comum” são cadernos de notas de leituras, cadernos de referências, utilizados desde a Antiguidade como ferramentas de formação para a preservação da memória e o desenvolvimento intelectual. Eles se apresentam como compilações de informações das mais variadas. Para além de fichamentos com citações de textos diversos, e os chamados sententiae (sabedorias, provérbios, adágios, aforismos), sua composição pode ultrapassar o mero registo da leitura para englobar “peças fugidias”, receitas, curas, ilustrações, descrições, pequenos relatos do cotidiano e de viagens. A seleção e organização dessas compilações daria a entrever o sujeito entre os seus “muitos esboços e restos de sentimentos”.

Um tomador de notas poderia organizar grandes quantidades de informações, referências e todo tipo de observações a respeito de suas leituras e do seu cotidiano, fazendo de seu commomplace book um auxiliador da memória. O objetivo principal de seu proprietário era o de dominar diversos argumentos e recordar exemplos gerais para utilizá-los quando conviesse. A dimensão de auto-aperfeiçoamento também está presente nesta prática, pois a formação de si implicada na leitura e na escrita poderia ser posta à prova na performance social da conversa educada. Assim, os cadernos configuram “uma prática regrada e voluntária” contra os riscos da dispersão e da perturbação do espírito.

É possível traçar uma genealogia entre essa prática e os hypomnemata gregos e também O livro do travesseiro de Sei Shonagon, mas os commomplace books tornaram-se populares no século XVIII eme interessam como dispositivo organizacional de formação de uma determinada subjetividade. A anotação funciona como um método apropriado para domar a fragmentação e a desordem do sujeito.

Assim, a fixação da razão e da conduta frente aos pensamentos errantes e desordenados era objeto de ponderação e os commonplace books funcionavam como ferramenta para ordenar a mente e o eu, além de organizar leituras e outros interesses.

Para Lucia Dacome, o uso de auto-injunções nas compilações parecia servir a este propósito, incitando o anotador a seguir com seus hábitos de autodisciplina e aprimoramento, assim podendo alcançar as expectativas morais de seu entorno no manejo das tensões entre o público e o privado. O conflito entre o eu natural, perturbado por um ritmo acelerado de ideias em demasia, e o eu artificial, em busca de controlar a mente e a si pelo “modo de anotar metodicamente tipos díspares de informações”, fazia da anotação praticada nos commonplace books um dispositivo de destaque para a formação intelectual e social do sujeito.

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