Kehinde e Luísa Mahin: A reelaboração de um mito

Lílian Miranda

Créditos da imagem: Dalton Paula, Luiza Mahin, 2020, oil and gold leaf on canvas in two parts.

Como já mencionei em alguns posts anteriormente, a escritora Ana Maria Gonçalves constrói a narrativa de Um defeito de cor transitando entre ficção e fatos históricos. O livro conta a história de Kehinde e sua trajetória enquanto negra africana nascida no Benin e traficada para o Brasil ainda criança. A narrativa em primeira pessoa é feita pela personagem já idosa numa viagem de retorno ao Brasil em busca de seu filho Luís, que foi vendido pelo pai na infância.

A personagem Kehinde é uma das representações ficcionais de Luísa Mahin, figura histórica. O livro de Gonçalves compõe uma história completa e detalhada acerca da vida de Kehinde, apesar de a história oficial contar com pouquíssimos registros historiográficos sobre a vida de Mahin. O que se sabe, no geral, é que a ex-escravizada participou ativamente do levante dos Malês em 1835 e que poderia ser a mãe do poeta Luís Gama.

Uma questão que me inquietou durante a leitura foi perceber que  a tematização desse evento (o levante dos malês) pelo romance de Gonçalves não deu à atuação de Kehinde grande protagonismo narrativo. Embora nós, leitores, possamos observar as movimentações dos Malês através do ponto de vista dessa personagem, fica evidente que ela não atua como líder e foge à imagem desenhada pelo imaginário comum, também apresentada em outras produções ficcionais, como em Malês, a insurreição das senzalas de Pedro Calmon que inclusive, atribui a ela o título de Rainha Africana.

A opção de Ana Gonçalves por construir a história dessa forma faz com que a representação de Mahin por meio de Kehinde ganhe outras nuances, explore outras dimensões de sua subjetividade, preenchendo uma lacuna da própria historiografia. Como aponta Aline Najara em “Entre o popular e a historiografia, uma imagem controversa: O caso Luiza Mahin”:

“Luiza Mahin é uma personagem presente em segmentos da memória brasileira, lembrada como símbolo de luta feminina e referência na resistência ao escravismo. A análise de representações e a percepção de distintas (re)construções discursivas acerca desta personagem em narrativas literárias e/ou historiográficas é o ponto de partida para compreender os mecanismos que permitiram a sua idealização e o que tais representações revelam sobre o contexto no qual foram (re)elaboradas.” (NAJARA, 2009)

No caso de Um defeito de cor, a autora (re)elabora um outro ponto de vista que narra, além da vida de Kehinde, uma parte da história do Brasil ao explorar diversos aspectos e particularidades da construção da nossa nacionalidade, por meio de seu trabalho de curadoria de documentos e arquivos, como aponta a bibliografia que a autora elenca no final do livro.

“O que estava em jogo não era apenas a participação dos pretos na revolta, mas também a defesa do país contra os pretos sem pátria  que queriam tomá-lo à força, a defesa do Deus do Brasil contra os feiticeiros da África”. Assim narra Kehinde numa passagem em que explica detalhadamente as deliberações judiciais às quais os suspeitos de terem participado da revolta dos malês estariam sujeitos diante do tribunal brasileiro, pois, ainda que fossem inocentes ou tivessem sido acusados arbitrariamente, deixariam o tribunal com algum tipo de pena, e quase sempre a maior possível. A personagem ainda reflete com indignação que na verdade esses movimentos de “tomar um país à força” eram realizados pelos brancos há muitos anos e completa: “Eles nos tiravam do nosso país e das nossas propriedades, faziam nossos batismos na religião deles, mudavam nossos nomes e diziam que precisávamos honrar outros deuses.”

Ao pisar em solo brasileiro ainda na infância, Kehinde foge ao batismo e demonstra grande expertise em recusar um nome cristão, utilizando-o somente quando necessário visto que para os brancos ela jamais poderia ser chamada de Kehinde ou manter quaisquer elementos que a ligassem à sua origem africana. Porém no seu regresso a Uidá ela assume a identidade de Luísa, seu nome brasileiro, que ela considera bonito, e cresce financeiramente através do comércio que consegue expandir a partir dos contatos que estabeleceu no Brasil e no Benin.

Essa transição representa uma série de acontecimentos e reviravoltas que a personagem narra ao longo do livro, mas, além disso, representa também o compromisso da autora em narrar uma história verossímil e humanizada que embora simbolize resistência e atribua à personagem características heróicas, não se resume a mitificar sua figura.

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