Representar o desejo

Nilo Caciel

Créditos da imagem: Hudinilson Jr, “Performance Narcisse,” Exercício de Me Ver II (Exercise in Looking at Me II) series, 1982. Courtesy of Galeria Jaqueline Martins, São Paulo.

Depois do lançamento de O que te pertence, em 2016, o escritor americano Garth Greenwell publicou em 2020 seu segundo romance, Cleanness (ainda sem tradução). A obra funciona como uma sequência de seu primeiro romance. Acompanhamos o narrador, um professor americano morando na Bulgária, no momento em que está prestes a voltar para os Estados Unidos, ocasião em que  reflete sobre sua experiência no país balcânico.

Orbitando os dilemas relacionados a sua sexualidade na maior parte do tempo, a obra é formada por situações e momentos desconectados, sem um plot central: um romance com outro estrangeiro, sua relação com a mãe, inquietações políticas em Sofia e um encontro casual que envolve sadomasoquismo.

Joshua Barone, crítico do New York Times, apontou que ‘‘apesar de [as situações narradas] não aparecerem em ordem cronológica, há uma simetria em sua organização’’. Acredito que Barone se refere à forma como a experiência do narrador com seus dilemas relacionados a sua homossexualidade irradia por toda a composição dos capítulos: sua sensibilidade que capta o modo como a circulação de poder funciona nas diferentes relações, seu anseio por laços afetivos profundos ao mesmo tempo em que leva uma existência solitária, em constante auto-análise. Estas são algumas questões recorrentes em obras de autores gays, incluindo James Baldwin, cujo romance O quarto de Giovanni foi apresentado aqui.

      Um outro elemento que se intensifica neste romance é a vividez com o qual atos sexuais são retratados. Em um dos capítulos do livro, de forma particularmente ‘‘suja’’ (em contraste com o título, cuja tradução literal é limpeza), testemunhamos um encontro no qual a linha entre consentimento e abuso é borrada. Greenwell é um grande defensor da presença do sexo em obras de arte. Sobre seu próprio livro, ele declarou querer fazer algo ‘‘100% pornografia e 100% arte’’. Sobre a forma explícita com a qual retrata atos sexuais, afirma:

Não é que eu ache que explicitação seja algo intrinsecamente interessante. Nossa cultura está afogada em coisas explícitas, graças à internet. No entanto, sofremos de uma escassez de representações de encorporamento, que quer dizer corpos imbuídos de consciência.

O romance de Greenwell me interessa porque investe na especulação sobre o desejo, explorando os afetos, o corpo e o sexo de uma maneira que cria um desdobramento na representação da subjetividade queer. A “saída de armário” ou a auto-aceitação de sua opção sexual, não estão mais no centro das preocupações das narrativas de Greenwell. Apesar de não ser possível afirmar que estas são questões totalmente superadas pela comunidade LGBTQ, os direitos dos LGBTQ têm avançado grandemente nas últimas décadas (pelo menos no Ocidente), abrindo um amplo espaço para o aprofundamento de discussões sobre sexualidade nas diferentes instituições sociais.   Como parte desta geração, Greenwell explora as nuances dos reflexos de ter crescido em uma sociedade que ainda se esforça para entender seu lugar no mundo, sem se preocupar em se afirmar ‘‘igual’’ nem se moldar a ideais heteronormativos de realização amorosa ou sexual.

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