A lógica de Kassel são as experiências que a arte proporciona

Allana Santana

Créditos da imagem: William Kentridge: The Refusal of Time, 2012.

Vila-Matas é um escritor conhecido por produzir “textos híbridos que mesclam diferentes gêneros”. Em Não há lugar para a lógica em Kassel, Vila-Matas escreve sobre sua visita à Documenta 13, considerada um dos maiores eventos de arte contemporânea do mundo sediado em Kassel, na Alemanha. O livro parece uma mescla de ficção, ensaio e relato de experiência e apresenta muitas imagens que parecem sugerir maneiras de interpretar a obra. Esse experimento parece similar ao que Sussekind chama de OVNI, ou objetos verbais não identificados, expressão que é empregada por Christophe Hanna ao tratar “dos processos, dos contextos, e do funcionamento crítico de certos experimentos literários de difícil classificação”.

Sob uma ótica similar, outro termo interessante é cunhado por Florência Garramuño ao comentar que obras com esse padrão promovem “desenquadramentos (…) e parecem compartilhar um mesmo desconforto em face de qualquer definição específica ou categoria de pertencimento em que instalar-se”.

Descrito a partir dessas categorias, o livro de Vila-Matas pode parecer que impõe um obstáculo à leitura. Entretanto, sua escrita é simples, se assemelhando a uma conversa ou à leitura de um relato facilmente encontrado nas redes sociais. Mas essa mesma fluidez da leitura pode caracterizar um obstáculo, pode constituir uma estranheza e desestabilizar a maneira como estamos acostumados a ler o que se entende como literatura, desde a modernidade.

O livro parte do convite de Carolyn Christov-Bakargiev e Chus Martínez, organizadoras da documenta 13, para a participação de Vila-Matas em uma intervenção no evento. O convite é para que ele se coloque à disposição por algumas horas em um restaurante chinês, nas cercanias do parque Karlsaue. Esse seria mais um dos muitos eventos simultâneos que aconteceriam durante a Documenta 13.

O comentário sobre a arte contemporânea, a menção a muitas das obras, como The Invisible Pull, de Ryan Gander e This Variation, de Tino Sehgal, e a reflexão sobre o que é visto na exposição são o principal ponto que reforça a inespecificidade da obra, como já mencionado. Muito da obra comenta as próprias impressões que o escritor tem ao se deparar com as instalações, como no comentário sobre a obra Untilled, de Pierre Huyghe:

A fumaça foi a primeira coisa que vi quando, em um caminho enlameado, começamos a nos aproximar da curva do parque onde se encontrava untilled, a incrível e inesquecível instalação de Huyghe. Terras a serem aradas, lavradas, sulcadas? O que mais pude apreciar, nessa minha primeira de muitas visitas a esse espaço que tanto me perturbou, foi a profunda estranheza do lugar. Era impossível ficar indiferente ali. […] O artista francês tinha conseguido transformar uma zona de jardim francês, ou seja, uma zona da ordenada natureza do parque, em uma espécie de espaço em processo de construção/desconstrução; um processo paralisado no tempo, com elementos vivos e inanimados.

Esse comentário também é uma posição de Vila-Matas sobre a arte contemporânea, pois segundo o narrador o público deve experimentar a “lucidez de assumir que quando menos entende tudo [o que acontece], melhor entende”. Vila-Matas sugere, então, que não é recomendável se aproximar da produção contemporânea com uma lógica pré-definida.

Outro aspecto importante é a presença de um jogo entre personagem e autor, um procedimento associado à autoficção, pois autor e personagem partilham o mesmo nome e a ida a Kassel aconteceu de fato e é matéria da narrativa:

“Dado o meu hábito inveterado de escrever crônicas sempre que me convidam para ir a algum lugar estranho para que lá eu faça algo de singular (com o tempo, me dei conta de que, na verdade, todos os lugares me parecem estranhos), tive a impressão de estar vivendo mais uma vez o começo de uma viagem que poderia acabar transformando-se em um relato escrito no qual, como era comum, mesclaria a perplexidade e a vida em suspenso para descrever o mundo como um lugar absurdo aonde se chegava através de um convite muito extravagante.”

Dessa forma, Não há lugar para a lógica em Kassel apresenta eixos de compreensão que configuram a obra como um exemplo de múltiplos procedimentos da literatura recente e que podem orientar a leitura. O comentário sobre a arte, a forma estranha de sua composição e o jogo autoral parecem dar uma marca particular à narrativa, cativando e intrigando o leitor.

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