O ritual da crítica de Ana Cristina Cesar

Raquel Galvão

Resenha sobre “Um rito de passagem”, crítica inédita de Ana Cristina Cesar em livros, publicada no jornal Opinião em 1975

Créditos da imagem: Hugo Simberg

A primeira colaboração de Ana Cristina Cesar para o jornal Opinião, “Um rito de passagem”(1975), curiosamente, não debate o campo literário, a literatura, os escritores e as obras, como a maior parte do seu corpus jornalístico. Neste texto, ela explora o vetor interdisciplinar das artes, música e teatro, descrevendo a experiência de espectadora e crítica frente à performance de Vera Terra, musicista carioca, que se propunha a interpretar um concerto do compositor e pianista francês Erik Satie (1866 – 1925) no espetáculo Fragmentos – roteiro de uma solidão, apresentado durante o mês de outubro do ano de 1975 na Sala Corpo e Som do Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio de Janeiro.

Como uma forma de reparação ao fato de o espetáculo ter passado praticamente despercebido na imprensa e de ter uma reduzida presença de público por conta da discreta distribuição de cartazes em bares e livrarias do Rio (prática também similar à de difusão de publicações independentes nos anos 1970), a escritora propõe uma reflexão sobre a produção de Terra, expondo o que, como testemunha da apresentação, lhe chega em sensações. Assim, na abertura da crítica, mediante a apresentação do “olhar do público” que percorre todo o texto, Cesar qualifica o espetáculo como belo, forte e radical: “para o público que compareceu ao concerto esperando a execução de peças musicais de Satie, com ou sem a presença de instrumentos e recursos da vanguarda, o espetáculo foi, no mínimo, desconcertante”.

O movimento crítico do texto valoriza a performance da pianista, cuja proposta se alicerça em uma ruptura com a noção tradicional de concerto e de concertista. Cesar nota que a apresentação, que conta com lances cômicos e críticos a um só tempo, tem como alvo os rituais burgueses ligados à música e à condição da mulher artista: a melodia brinca com acordes grandiloquentes e o espetáculo incorpora palmas gravadas que deixam em evidência a atmosfera de concertos familiares;  slides são projetados como recurso visual para “mostrar imagens de meninas em plena exibição pianística para os zelos paternos, entre flores e sorrisos” e, na última parte do concerto-performance, Cesar observa que a apresentação rompe com a ideia do concerto como ritual e expõe o corpo da pianista como experimento: “Os sons agora são produzidos por seus pés contra os solos, por seus gritos de cansaço, pelo seu ofegar cada vez mais forte”.

Quebrar, de alguma forma, com os ritos impostos pelo exercício cotidiano da arte, como aponta Cesar sobre Vera Terra, configura um locus de ruptura. Para Cesar, a proposta artística de Vera não se esgota em uma discussão conceitual sobre Satie: “mas ao romper com a ‘moldura’ do concerto, assinala o aparecimento do artista com sua força e seu suor”.

Marcos Siscar, em “A paixão ingrata: pequena história autobiográfica da aporia”, ao abordar a conjunção entre vida e pensamento na obra de Jacques Derrida, destaca que o testemunho (e a crítica pode ser entendida assim) é um ato performático, um reconhecimento afetivo.

Elaborando o que poderíamos chamar de uma “escrita performativa” diante de uma performance, Ana Cristina Cesar estabelece com sua crítica uma espécie de documentação da performance. Em “um rito de passagem”, Cesar coloca seu corpo crítico à escuta diante da atmosfera musical do espetáculo- performance executado por Terra para evidenciar os estereótipos sobre a arte, sobre o recital de música, mas também para propor reflexões sobre os lugares do feminino, sobre o “lugar da mulher” no campo artístico.

Uma resposta para “O ritual da crítica de Ana Cristina Cesar

  1. Muito boa resenha!

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