Representações do HIV/AIDS na literatura: ”Narrativas pós-coquetel”

Ramon Amorim

Créditos da imagem: The last supper – Salad (1999), Damien Hirst

Como já discuti em outro post, a descoberta de um conjunto de medicamentos para o tratamento da infecção por HIV possibilitou outros modos de lidar com a AIDS. Essa mudança também é visível no modo de representação da doença pelas produções literárias. Muitos chegam a denominar essas produções como “narrativas pós-coquetel” ou “literatura pós-coquetel”.

Em “Depois de agosto”, de Caio Fernando Abreu, já aparecem menções à descoberta de medicamentos que transformam a representação da doença. Em dois rápidos momentos, a narrativa menciona “drogas pesadas” e nomeia especificamente a zidovudina, primeiro medicamento aprovado para uso no tratamento de infecção por HIV.

De forma diferente ao do conto de Abreu, no romance Nossos ossos de Marcelino Freire, publicado em 2013, a presença do “coquetel” é um pouco mais explícita. Nesse romance, o protagonista, Heleno, um homem que migra do Recife para São Paulo, onde se torna um premiado dramaturgo, “é portador do vírus HIV” e, diferentemente das produções sobre o tema lançadas nas décadas de 80 e 90, lemos que há tratamento para o personagem, pois “já há alguns coquetéis importados”.

Contudo, o modo de abordagem da doença nessa narrativa ainda associa a infecção por HIV à AIDS e à ideia de morte. Isso fica mais aparente quando o protagonista, ao alucinar (talvez porque tenha descumprido o horário estrito de ingestão do medicamento), conversa com um personagem que “morreu de aids”. A presença da morte ronda a menção à doença também na orientação médica recebida por Heleno: “há casos em que o paciente nem sente, sobrevive”, “casos em que os pacientes até hoje não desenvolveram a doença, creia, existe esperança, é preciso paciência, vontade de lutar, viver”.

Os trechos acima parecem demonstrar que mesmo diante dos avanços no campo biomédico, ainda há, em parte da produção literária sobre HIV/AIDS, aquela “sombra” iminente da morte e que algumas imagens muito comuns no passado transitam junto a questões e desdobramentos mais que consolidados no presente.

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