Breves reflexões sobre a cadeia produtiva do livro na Bahia: um lugar em aberto

Milena Tanure

Créditos da imagem: Relativity – M. C. Escher (1953)

Na última semana, a pesquisadora e escritora Calila das Mercês esteve no encontro de Leitura e Literatura (ELLUNEB) da Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e, nessa oportunidade, levou algumas notícias sobre sua trajetória e caminhos de pesquisa. Calila é conhecida, em especial, pelo trabalho de seleção e divulgação das escritoras negras da Bahia, no entanto, apesar de tamanha relevância do trabalho realizado, as discussões por ela realizadas me interessam ainda mais pela denúncia ao pouco destaque ofertado às discussões sobre o campo literário e a cadeia produtiva do livro em solo baiano.

O projeto por ela realizado em parceria com Raquel Machado Galvão e Roberto Seidel, intitulado Publicações na Bahia: mapeamento e diagnóstico das editoras baianas (2014), foi responsável por realizar um mapeamento e diagnóstico das editoras baianas no intuito de compreender a cadeia de produção do livro no Estado. Já naquela oportunidade, foi possível identificar, em toda a extensão baiana, uma gama de editoras que operam na formalidade e com ampla divulgação comercial, assim como editoras de pequeno porte que funcionam de modo mais alternativo. Em especial, a pesquisa coloca em cena o modo pelo qual, nesse cenário, as editoras universitárias são aquelas que apresentam estruturado nível de profissionalização. Além disso, há um destaque para a relevância das feiras que possibilitam a circulação dos livros e projeção das editoras. Particularmente, me chama atenção o fato de tal pesquisa, englobando um significativo contexto e o cenário da cadeia produtiva do livro em solo baiano, não ter a projeção necessária para que possamos pensar a promoção de políticas e ações mais efetivas que venham a fortalecer o universo da publicação, circulação e leitura do livro literário produzido na Bahia. Tal inquietação me tomou, sobretudo, ao ouvir Calila sinalizar que aquela era a primeira vez que falava de suas pesquisas e criações literárias em um evento na Bahia.

A pesquisa sobre As Publicações na Bahia já dava indícios de um rico cenário de auto publicação ou auto edição, em especial ao falar sobre os cordelistas, no entanto, outras falas que pude escutar no ELLUNEB foram significativas ao tratarem sobre o agenciamento das carreiras e publicações pelos próprios autores e autoras na atualidade. Sinalizo, por exemplo, a mesa Diálogos Insubmissos de Mulheres Negras e a potente fala da escritora Jovina Souza que, ao final de sua explanação, pontuou que todo o trabalho de publicação das suas obras não conta com o auxílio de editoras e editores que agenciem o seu fazer artístico, cabendo a ela editar, publicar e fazer circular os seus próprios livros. Anajara Tavares, por sua vez, citando a sua participação em uma série de coletâneas que fazem circular os nomes e textos dos artistas, indicou que a publicação de algumas delas também só foi possível pelo financiamento próprio. No mesmo sentido, a poeta Vânia Melo registrou que seu primeiro livro, Sobre o breve voo da Borboleta e suas esquinas (2018), foi possível a partir da publicação pela editora Organismo e pelo trabalho editorial de um editor, Jorge Augusto, engajado com publicações como as que compunham aquela mesa.

O que vai se delineando para mim, com essas e outras inquietações, é o modo pelo qual, para além de uma tentativa de novos gestos para se pensar e movimentar o mercado do livro na Bahia, há, ainda, entraves que apontam para uma falta de profissionalização, mas, sobretudo, para uma falta de amplo debate para se pensar o mercado do livro enquanto material que também é responsável por movimentar as engrenagens culturais. Em verdade, reconhecer o universo do livro enquanto mercado de bens simbólicos e econômicos é indispensável para reconhecer a relevância de diagnósticos como o da pesquisa produzida por Calila das Mercês, Raquel Machado Galvão e Roberto Seidel, mas, sobretudo, para perceber tal debate como indispensável para uma discussão sobre políticas culturais que objetivem a profissionalização do escritor, a publicação dos livros e a formação de amplo público leitor.

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