A crônica em expansão

Vanessa Ive

Créditos da imagem: Portrait de Mme. K – Joan Miro – 1924.

Após a defesa da minha dissertação A crônica na contemporaneidade: coralidade e exposição de si nas crônicas de Antonio Prata, Tati Bernardi, Gregorio Duvivier e André Santa’anna , no último dia 08 de abril, tive a sensação do dever cumprido e a satisfação de ter um desejo realizado. Na verdade, o que estava por trás de todos os objetivos traçados para a minha pesquisa de mestrado era a vontade de ver a crônica – esse tipo de texto tão arraigado a nossa vida comezinha – no cerne da discussão. Sob a análise das professoras Edma de Góis e Suzane Lima, a defesa se tornou um momento de rara reflexão sobre os processos da escrita atual da crônica, bem como sobre as lacunas deixadas pelo escasso referencial teórico já existente sobre o gênero.

Com a pesquisa centrada na atualidade da crônica, havia, desde o início um impasse: como discutir um gênero específico quando não é raro nos depararmos com textos teóricos sobre a produção atual que apontam para uma diluição das formas e fronteiras entre tipologias textuais? Sem o interesse de estabelecer novas normas para a crônica, meu objetivo era avaliar se era possível reconhecer a continuidade do gênero e ao mesmo tempo perceber nuances em sua forma. Tomei como ponto de partida os traços historicamente associados ao gênero que dialogam com os fenômenos marcados pela nossa forma de viver o presente. Assim, tentei coadunar o olhar lançado a seu entorno pelo cronista, sob a marca da 1ª pessoa para registrar o cotidiano desimportante a um possível apagamento dessa voz narrativa que na crônica é tão marcante e muitas vezes está associada ao próprio autor, resgatando da teoria sobre o teatro atual a noção de coralidade.

Entretanto, ao avançar na pesquisa, me deparei com outra questão. Se “é da própria natureza da crônica a flexibilidade, a mobilidade, a irregularidade”, como nos lembra Afrânio Coutinho, como fazer um recorte de uma produção tão diversa e disforme? E foi assim que, frente a esse caráter heterogêneo, optei por apresentar dois modos de leitura distintos da crônica hoje. No primeiro, o “eu” é posto em evidência e aspectos da vida privada são transformados em elementos da extimidade – termo proposto por Paula Sibilia, colocando a crônica numa esfera de produção similar aos escritos que se nutrem da experiência pessoal daquele que escreve. Enquanto no segundo ocorre o movimento inverso: fratura-se a 1º pessoa para emergir na escrita o coro, a pluralidade de falas por meio da coralidade, um recurso do teatro proposto por Jean-Pierre Sarrazac.

Durante esse processo, percebi que a prática do gênero em registrar a vida desdobra-se nesse tempo; é o bloco pessoal de anotações, o diário de vivências, a captura do agora por meio do eterno presente, a difração de vozes “ouvidas por aí”. Novas relações são propiciadas e o gênero se expande, se desprende da demarcação jornalística, e vai para uma forma expandida em diálogo com outros escritos que também registram impressões, abarcam o entorno e apresentam, ao seu modo, a materialidade do cotidiano e suas fatias de vida. Nesse diálogo, instala-se o que chamo de dicção cronística : a presença do gesto de acionar a escuta e olhar ao entorno por meio da cena da escrita, a exemplo de escritos publicados em blogs e redes sociais.

Embora o propósito dessa pesquisa não tenha sido pensar a atualidade da crônica a partir da internet, as inquietações despertadas durante toda a investigação mostraram a necessidade de lançarmos um olhar atualizado sobre a crônica, como já ratificou uma vez o pesquisador Luis Eduardo Garcia: afinal, se outros gêneros ganharam (re)leitura de possíveis alterações que refletem questões desse tempo, por que a crônica – logo, ela, que se alimenta tanto do presente – não foi estudada sob uma perspectiva contemporânea?

Assim, a defesa constituiu não só um momento em que o debate sobre a crônica se reacendeu, como também pôs em evidência meu desejo de manter esse gênero como eixo base de futuras discussões. Respondendo, então, aquela dúvida inicial: sim, é possível ainda discutir gênero numa perspectiva não normativa, utilizando-o, sobretudo, como filtro de algumas das questões importantes do presente, pois nos parece que é a partir da questão do gênero que podemos partir para pensar a crônica como um texto aberto a experimentações, disposto a se arriscar a outras formas de expressão.

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