Fanfics e antropofagia

André Neves

Usar a cultura europeia não mais como modelo ou padrão, mas como combustível para colocar em movimento outra cultura repleta de elementos próprios foi uma das características mais marcantes da proposta antropofágica de Oswald de Andrade no início do século passado. Sua proposta desdobrou-se em movimentos posteriores que tentam abstrair, deglutir e devorar os elementos constitutivos das estruturas da cultura com a finalidade de reconfigurá-los para a constituição de uma nova estética.

Proponho aqui pensar no que seria a antropofagia hoje e quais implicações da cultura de apropriação para a literatura no contexto atual. Como a cultura da apropriação possibilitou dar forma a um corpus literário a partir de desdobramentos tanto teóricos/conceituais quanto estéticos?

Reconheço que as questões são complexas para serem tratadas no espaço deste post, mas mesmo assim, me arrisco a propor que a leitura de algumas narrativas atuais podem ajudar a começar a pensar em respostas que apontam para outras formas de pensar a literatura. As narrativas contemporâneas, sobretudo nas redes sociais, subvertem e “antropofagizam” a cultura e a literatura e nos fazem pensar sobre um leitor/espectador como um sujeito mais independente das formas e conteúdos da tradição e da crítica.

Em entrevista em programa especial intitulado “Oswald de Andrade em cena” no Canal Saúde, disponibilizado no youtube, João César de Castro Rocha autor e organizador do livro Antropofagia hoje afirma que “a antropofagia no sentido oswaldiano sempre quer dizer a capacidade de apreender experiências simultaneamente, experiências diversas […], é, em parte, a capacidade de lidar de maneira produtiva com a simultaneidade sem estabelecer hierarquia e sem estabelecer exclusões a priori”. O crítico afirma ainda que os antropófagos de hoje são os “devoradores” de livros, os usuários da internet, o leitor cibernético que faz sempre uma releitura do mundo ao redor, na condição de um internauta.

A apropriação inventiva de mídias já existentes como ferramenta de comunicação e divulgação são reutilizadas e reinventadas pelos fandoms, os fãs que compartilham interesse por uma obra literária, um filme, uma história em quadrinho, reapropriando-se delas. É importante pensar como novos atores e consumidores culturais entram em cena na contemporaneidade mais precisamente a partir da explosão da cultura de mercado, da cultura de consumo, como cada vez mais produção e consumo parecem caminhar juntos quando falamos de cultura.

Seria possível pensar as fanfictions como uma produção que trabalha com a operação básica da antropofagia, a apropriação, e que mantém vivo o lema do Manifesto Antropofágico “Só a

ANTROPOFAGIA nos une […] Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago”?

Talvez uma resposta possa se delineada a partir do pensamento do crítico João César de Castro Rocha quando afirma que “antropofagia é uma imaginação teórica de apropriação de alteridade”, pois se existe algo de que necessitamos no mundo contemporâneo globalizado e assimétrico, cujas relações de poder são cada vez mais evidentes, é desenvolver uma estratégia teórica que permita a apropriação criativa do outro.

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