O professor e a literatura

 

Por Luciene Azevedo

Recebendo todo semestre alunos que ingressam nos cursos de Letras, costumo perguntar quantas pessoas do círculo de relações deles podem ser consideradas leitores e leitoras de obras que, apesar da elasticidade do termo, possam ser chamadas de literárias. O silêncio que recebo em resposta não deixa de provocar certa melancolia. Por outro lado, é comum ouvir dos alunos, durante as aulas de literatura brasileira ou de teoria literária, a queixa de que há muita “teoria” e que a prática, a dinâmica didática do ensino da literatura nunca lhes é oferecida, ao menos não suficientemente, no entendimento dos alunos, pelo currículo do curso de Letras.

Não é incomum ouvir e testemunhar a estupefação dos alunos diante da dissonância cognitiva que experimentam ao ouvirem falar da literatura nas aulas. Muitos chegam a confessar o constrangimento de não serem leitores, mesmo tendo se decidido pela formação como professores de língua e literatura. O que os futuros professores afirmam é que a experiência como alunos do ensino fundamental, principalmente no ensino médio, deu-lhes uma ideia da literatura como um conjunto enfadonho de nomes de autores, datas, características de períodos literários e pouca ou quase nenhuma experiência de leitura dos próprios textos apresentados a eles como literários.

Todo semestre tenho de me desdobrar para inserir os alunos na discussão da dificuldade da definição do literário, da falta de uma essência da matéria sujeita às mutações culturais, acostumá-los ao gosto pelas perguntas, mais que à urgência das respostas definitivas a fim de fazerem conviver dois objetivos do ensino da literatura: a oferta ao aluno do conhecimento de sua tradição cultural, literária e a formação de sua proficiência de leitura das produções dessa tradição.

Lendo recentemente o texto de Paulo Franchetti na coletânea organizada por André Cechinel  encontro nele uma avaliação ampla sobre a condição do literário hoje: a de que a teoria literária suplantou a leitura da literatura e que por isso também é responsável pela perda da relevância social da literatura hoje. Tomando como base sua própria formação profissional, Franchetti alia a perspectiva testemunhal a uma acurada análise da profissionalização do estudos literários na universidade. Seu texto é um passeio pelas diferentes vertentes analíticas da obra literária, indo desde a boa e velha “explicação de texto”, passando pelo estudo intrínseco do texto que inaugura a prática da teoria literária na academia até chegar ao triunfo da análise estrutural entre nós.

Mas o mais interessante de seu posicionamento consiste no elogio ao ecletismo dos métodos analíticos para a leitura da obra literária.  Franchetti afirma que ao longo de sua formação vivenciou nas aulas da universidade a combinação de métodos distintos (um pouco de ‘explicação de texto’, mais alguma coisa de crítica sociológica, por exemplo) que, analisados hoje, operaram uma “síntese improvável” em sua própria atuação docente, pois a combinação eclética dos métodos analíticos que o formaram privilegiava a “leitura produtiva do texto”, a “leitura analítica como principal função do estudo da literatura”, independente do instrumental teórico utilizado.

A leitura recente desse posicionamento me fez lembrar minha condição de estudante ainda na pós-graduação quando ouvi de um professor que a teoria literária tinha morrido, não existia mais, pois não dava mais conta da tarefa de entender a literatura. Hoje, mais de 20 anos depois, entendo a provocação um pouco como um lamento à la Compagnon, chorando seus “amores”, como uma crítica a certa instrumentalização excessiva da teoria, entendida como uma caixa de ferramentas ou como um aparato conceitual autossuficiente.

No cotidiano de minhas aulas, a teoria é um elemento utilizado para ampliar as possibilidades de conhecimento sobre o modo de leitura dos textos literários. Digo isso porque acredito que a teoria é uma prática de leitura, um exercício de escrutínio das diferentes dimensões do texto considerado literário (sua forma, sua linguagem, seus entornos), que oferece ao aluno a possibilidade de ampliar suas perspectivas de leitura, de ter “uma percepção melhor das implicações das questões que coloca às obras que lê”, com assevera um clássico de nossa área  e por isso sempre me soou estranha e estreita a oposição entre teoria e prática.

O cultivo como prática docente da multiplicidade dos interesses e do ecletismo das perspectivas teóricas são defendidos por Franchetti como a luz no fim do túnel. Assim, antes de ser um professor de teoria da literatura, o professor universitário seria um “professor de leitura, um profissional capaz de obter o maior rendimento de leitura de um texto literário com vistas à formação de um público culto”. Burlando a dicotomia entre a prática e a teoria, Franchetti propõe “um lugar novo para a literatura, no âmbito da formação humanística ampla”.

Tendo comentado -e abonado- aqui mesmo no blog a postura descrente do filósofo alemão Peter Sloterdijk em relação ao humanismo, minha primeira reação às proposições de Franchetti é torcer o nariz, mas ao mesmo tempo me identifico com a ideia de que a literatura “é um conjunto de textos, produzidos em épocas (e línguas) diversas, que merece o esforço de aproximação, entendimento e mobilização de todo o arsenal disponível para compreender as obras do ponto de vista mais complexo, mais abrangente possível”, como afirma o professor da Unicamp.

Talvez o impasse não possa mesmo ser resolvido e sua validade seja a de servir simultaneamente como pergunta e  resposta, pois talvez a grande questão esteja nos modos como imaginamos nossas identidades, quem somos e como atuamos como professores, e como pensamos sobre nosso objeto de trabalho, de estudo e de prazer. E assim talvez estejamos contribuindo para  reinventar a justificativa para o lugar e o papel da literatura no século XXI.

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6 Respostas para “O professor e a literatura

  1. Professora, amei a leitura desse texto. Algumas de suas inquietações são iguais as minhas, e creio que as de quase todos os professores de literatura. Acredito que na atualidade estamos sendo cada vez mais convocados a (re)pensar a docência, a prática pedagógica, seja pelo pragmatismo do mercado, seja pela constatação de que são necessárias mudanças nas formas de ensino. De minha parte, já copiei e salvei esse texto, ele se converterá em um maravilhoso material didático para um primeiro dia de aula e guia de curso. Obrigado!!!

  2. Michel, querido, que bom que você gostou do post. Uma das boas recompensas de ser professor é encontrar conversa com colegas como você.

  3. Jorge Leite de Oliveira

    Parabéns pelo texto, Luciene. Também vejo desse modo. O aluno precisa ser estimulado a aprender a pesquisar e fazer da pesquisa um instrumento motivador de seus próprios textos.

  4. Olá, Jorge. Obrigada pelo comentário. Muito bom tê-lo como leitor do blog.

  5. Querida Professora, No primeiro semestre tudo é complicado. Diante de suas perguntas a melancolia bate mesmo. Aprendi muito. Saudades!

    • Renata, querida, bom saber que você nos lê. Primeiro semestre é “complicado”, mas é bom também. Principalmente, quando depois, nos semestres finais, podemos fazer um balanço do que fomos como alunos e perceber as mudanças, tal como percebo em muitos de meus ex-alunos.

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