Literatura digital – o autor e o leitor 

Por Sérgio Santos 

Fonte da imagem: https://goo.gl/n2C2Jb

No texto “Introdução – as comunicações pessoais”, de Reinaldo Laddaga (2013), encontramos a seguinte passagem em resposta à pergunta de Paul Valéry, “o que são as obras de arte?”: “A obra de arte é um painel que separa dois espaços: em um deles se encontra o artista; no outro, os espectadores”. Tomemos essa resposta para pensarmos algumas perspectivas sobre a literatura digital, desamparados sob outra questão: quão “separados” estariam, hoje, os espaços entre as obras, os autores e os leitores? Vejamos. 

Em arte digital, a entrada em cena de alguém que transforma a linguagem de computador em um código a ser executado, a importância do programador da linguagem que gera o software capaz de originar a “obra”, parece sugerir uma reconfiguração das figuras do autor e do papel do leitor. 

Segundo o professor e artista intermídia Júlio Plaza, os autores que se arriscam à condição de programadores de suas obras estariam “mais interessados nos processos de criação e de exploração estética do que na produção de obras acabadas”, numa expectativa de que seu público aja sob um fluxo, modificando a estrutura, interagindo com os ambientes, percorrendo a rede, enfim, participando dos atos de transformação e criação. Para Plaza, a relação de primazia autoral poderia passar a um segundo plano, pois, “em pleno cyberspace, todo mundo é autor, ninguém é autor, todos somos produtores–consumidores; ou seja, está indo solenemente por água abaixo a velha e renitente distinção entre quem faz e quem frui”.

Essa perspectiva parece fragilizar a condição da autoria, pois coloca em xeque sua autoridade sobre a criação da obra. Em post recente, Nivana Silva, citando a performance do autor Ricardo Lísias no booktrailler “Inquérito policial: família Tobias”, afirma que “as várias vozes do autor diluem a unidade autoral”, mas, ao mesmo tempo, “alicerçam o lugar singular da assinatura, imortalizada no gesto de escrita”. 

Mas no contexto da literatura digital em que parece valer o “somos–todos–autores”, conforme afirma Plaza, “lugar singular da assinatura” parece perder sentido, pois a participação do interator (de um leitor que age, atua, manipula os comandos) faz com que o texto não consista apenas nas palavras escritas pelo escritor/programador, mas também “nas decisões, na construção da estrutura que ele [o leitor] poderá explorar” (PIRES, s/d). 

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