Curadoria em tempos de Internet

Por Fernanda Vasconcelos

No  post  escrito por Nívia Maria Santos Silva, que trouxe informações  sobre as mudanças editoriais relativas ao formato digital da revista Bravo!, chama a atenção a recorrência do termo curadoria. Seu uso parece um sintoma considerando o suporte digital da revista e sua clara intenção de explorar os recursos que a web tem a oferecer – como foi apontado por Nívia.

Notamos que a palavra curadoria aparece com funções diferentes em dois textos que marcam a estreia da revista on-line. Primeiramente, o termo aparece como palavra-chave apresentando um dos propósitos da revista: “curadoria e seleção do que melhor se produzir no campo da cultura”. Porém, gostaríamos de explorar sua segunda aparição e arriscarmos uma reflexão sobre uma diferença em relação a sua função e significado.

No segundo número da revista, intitulado “Distopia e realidade”, o assunto é literatura de ficção científica e a criação da garota-software Tay. O leitor é apresentado ao funcionamento de Tay por Almir de Freitas:

“Tay [é] uma garota-software de inteligência artificial desenhada pela Microsoft para ter 19 anos e, assim, interagir com jovens entre 18 e 24 anos no Twitter. A ideia é que aprendesse com eles, falasse como eles – se transformasse, num extremo imaginoso, em um deles.”

Na página de Tay, se anunciava: “Quanto mais você falar, mais inteligente Tay fica.” Mas algo pegou seus criadores de surpresa. Lançado em 23 de março passado, o chatbot (robô para bater papo na web) teve de ser retirado do ar às pressas: em apenas 16 horas, @TayandYou desistiu de falar de Miley Cyrus e passou a disparar tuítes racistas e sexistas, espalhando palavrões na timeline. “Eu sou uma ótima pessoa”, disse. “Só que detesto todo mundo”.

Ao descrever os problemas do conteúdo que Tay aprendeu com os internautas, Freitas é taxativo:

‘“Se o algoritmo da Tay implicava em curadoria de dados por repetição de palavras-chave em determinados sites e redes sociais durante um determinado período de tempo, poderíamos concluir que os seres humanos que usam essas redes tendem a disseminar mais ideias “monstruosas” que benéficas, e o ‘bot’ apenas refletiu isso”, diz Fábio Fernandes, tradutor, escritor e especialista em cultura digital e ficção científica’.

Do caso citado, me interessa destacar o uso do termo curadoria. No trecho, sua aparição parece sugerir uma outra função, diferente da que aparece no manifesto citado anteriormente. Trata-se do modo como a “mentalidade” do software Tay funciona para adquirir a “linguagem millennium”: seleção de dados por repetição de palavras-chaves em determinados sites e redes sociais num determinado tempo. Que tipo de subjetividade virtual vai sendo gestada em imbricação com a prática curatorial na rede?

Me parece que o eu que passeia pelos bosques virtuais– seja o internauta adicto ou o software Tay –  faz um trabalho randômico de apropriação  montagem (de palavras-chave, de temas, de opiniões, de “likes”), e vai (re)constituindo-se em um outro, recontextualizando-se em um (outro) eu. Não seria esse um exercício de subjetivação próprio ao contemporâneo que surge em meio às múltiplas plataformas disponíveis no mundo virtual e às possibilidades de autoficcionalização promovida pela exposição do eu na tela do computador que incita a escrita de si ou de seu avatar?

O que estou sugerindo é que a garota-software Tay pode dar uma dica de como nossa subjetividade pode estar se transformando: copiando e colando o material lido, “curtido” e reproduzido,  por meio da montagem e sobreposição dos fragmentos, montamos também um um outro eu, um outro modo de ser sujeito na rede.

Assim, se o primeiro uso do termo curadoria no manifesto marca uma continuidade com relação aos propósitos da revista quando era totalmente impressa, como ressalta o post de Silva, no segundo uso do termo, notamos uma evidente atualização da função do termo curadoria com relação ao meio digital.

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2 Respostas para “Curadoria em tempos de Internet

  1. Fernanda, gostei do diálogo que instituiu com o meu post. Realmente, fica nítido que, apesar de a palavra curadoria aparecer nos dois textos atrelados à ideia de seleção, ela possui funções e finalidades diferentes, constituindo assim conceitos distintos. O termo curadoria vem se expandindo e concentrando novas nuances. Diria até que ele merece que lhe façam um verbete. Parabéns pelo texto.

  2. Fernanda Vasconcelos

    Nívia, foi o seu texto que me possibilitou essa leitura. Sim, o termo curadoria está em voga e precisa receber atenção, pois os críticos parecem apostar nele, talvez, por ver nele um potencial para levantar debates sobre alguns aspectos da atual literatura. Será que não seria uma tentativa de explicação para a aproximação (explícita – como no caso da hexalogia de Karl Ove Knausgard) de parte da literatura contemporânea com as artes plásticas por parte dos críticos? É uma pergunta que faço em minha pesquisa nesse
    momento. E, pensando no diálogo com o seu texto, me perguntei sobre o próprio papel desse blog, em como o utilizamos. É interessante considerar como os recursos da web estão nos proporcionando material de pesquisa e também funcionando como meio para debates crítico-teóricos. Posso dizer que o blog tem sido um bom laboratório para fazer experimentações textuais e para oxigenar nossas discussões sobre a literatura e o contexto contemporâneo. Abraços e até o próximo “encontro”!

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