A nova Bravo!

Por Nívia Maria Santos Silva

Em agosto, zapeando pela internet, encontrei a notícia: “A revista Bravo! é relançada com plataforma digital e versões trimestrais impressas”. Corri para o link http://bravo.vc/ e eis que encontro um manifesto que continha explicações sobre o novo formato, a aposta e o objetivo da chamada nova Bravo!, a saber: “Bravo! volta para avançar o olhar para as fronteiras do fazer artístico, dar acesso à nova arte, dialogar com os artistas e com o público que consome arte, debater tendências.”. O manifesto ainda anuncia que “O nosso trabalho diário será o da curadoria e seleção do que melhor se produzir no campo da cultura, no Brasil ou além.”.

Formada principalmente por dossiês monotemáticos multimidiaticamente apresentados, a Bravo! retorna em outro suporte, com outro visual e outra equipe editorial e de jornalistas, mas mantendo a pretensão de ser referência “do melhor”, discurso que a Bravo! já enunciava desde sua criação por Luiz Felipe D´Ávila, em 1997.

À época de seu lançamento, com o apoio da Lei 8.313, também conhecida como A Lei Rouanet, a Bravo! contava com as cotas do Banco do Brasil, Pão de Açúcar, Iguatemi, Banco Real e da Volks, suporte financeiro necessário para atender às ambições da revista que chegou às bancas com um projeto gráfico sofisticado, que incluía um alto padrão editorial. Rodada em quatro cores, em papel couchê, cada edição apresentava em média 150 páginas, custava em média 120 mil reais e tinha uma circulação que chegava a 45 mil exemplares.

Com o pretexto de ser uma agenda cultural, desde aí a sua tendência à curadoria, apresentava também espaço para o ensaísmo e a crítica, apresentados em colunas como “Ensaio!”, “Notas”, “Crítica” e “Livros”, assinadas por nomes controversos como Ariano Suassuna, Reinaldo Azevedo, Olavo de Carvalho, Daniel Piza, Sérgio Augusto, Fernando Monteiro e Bruno Tolentino. De 1997 a 2003, pertenceu à editora D’Ávila, período no qual apresentava uma linha editorial pautada, conforme seu primeiro diretor de redação, Wagner Carelli, na separação entre cultura e entretenimento. Suas páginas tratavam não só da literatura, mas também de cinema, teatro, música, dança e, principalmente, artes plásticas, ressaltando, sobretudo, os parâmetros da cultura erudita.

Seu segundo diretor de redação, João Gabriel Lima, chegou a dividir a existência da revista Bravo! em quatro fases, a primeira sem abertura para o entretenimento e as demais com uma linha editorial mais flexível, principalmente após ter sido comprada pela editora Abril. A última Bravo! em versão impressa mensal foi publicada em outubro de 2013, número 192, com José Saramago na capa.

Três anos depois, com a licença da Abril Comunicações S.A. e contando com o apoio do Instituto de Políticas Relacionais, uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público, a Bravo! volta sob a direção visual de Henk Nieman, direção de criação de Peèle Lemos e Yentl Delanhesi e com os publishers Helena Bagnoni e Guilherme Werneck.

Dispondo de vídeos, áudios, links, blog e utilizando uma linguagem mais própria para web, a nova Bravo! é uma revista digital que explora as possibilidades das ferramentas que a internet oferece. Ela possui, inclusive, um serviço de newsletter por meio do qual continua a sua marca de nascença que é ser também uma agenda de artes e espetáculos: o “Bravo! Indica”. E a Bravo! indica museus de todo o mundo, como os de Málaga e Madri, sugeridos no Newsletter #11 e apresentações artísticas em geral como mostras de cinema, exposições, espetáculos de dança, sobretudo da cena cultural brasileira, mais especificamente São Paulo.

Seus dossiês monotemáticos são apresentados em forma de temporada, como as séries de TV. A cada 15 dias, um novo episódio é lançado. Cada temporada é composta por seis episódios publicados ao longo de três meses. Nesse formato episódico, não há muito espaço para a opinião e para o ensaísmo, que eram outra marca da primeira Bravo!. O investimento maior da nova Bravo! parece ser a circulação da informação cultural por meio de uma hipertextualidade que conecta o leitor-navegador a entrevistas, a artes visuais, a músicas…

Por oferecer acesso gratuito ao site, a nova Bravo! tem o desafio de realizar parcerias para que o projeto continue sendo viável, como a que fez com Spotify. Tendo o Facebook como uma de suas principais plataformas de divulgação, com 14.573 curtidas, a Bravo! tem como outro desafio conseguir mais leitores-seguidores.

Diante de um campo no qual os jornais impressos diminuíram o espaço ou descontinuaram seus suplementos culturais, como o Prosa&Verso, e as revistas especializadas precisam cada vez mais de auxílios governamentais, como a Reserva Cultural (cotas de assinatura compradas pelo governo), para se sustentar, a internet se tornou o terreno mais atrativo para o desenvolvimento do jornalismo cultural.

A renovada revista Bravo! vem nessa esteira, mas vai investir também numa publicação trimestral impressa. A temporada#0, chamada Incertitude, por exemplo, já foi finalizada e lançada em forma impressa na última terça-feira, dia 13 de dezembro, em São Paulo. Com certeza, uma edição de colecionador. Agora, uma próxima temporada vem por aí com mais produção de conteúdo cultural para ler, ver, ouvir, assistir e consumir, é claro. Se ela conseguirá ser uma mediadora da cultura só o tempo dirá.

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3 Respostas para “A nova Bravo!

  1. Nívia, gostei muito da apresentação que você faz da revista. Ao trazer uma grande quantidade de informações editoriais, entendemos melhor o propósito e a viabilidade do novo formato da revista. Como exemplo, podemos citar a parceria com a Vímeo que possibilita a inserção de trechos de filmes ilustrativos ou suplementares em meio aos textos escritos, e proporciona uma outra experiência de leitura que extrapola à leitura restrita ao papel. Assim, notificando as parcerias da revista, conseguimos nos aproximar do que continua ou muda na nova versão da Bravo. Ainda pensando nesse formato, me pareceu que ao buscar explorar os recursos da web, a edição procurou uma atualização da revista, e com a apresentação da revista por meio de um manifesto, a edição deu indícios de uma continuidade, de um diálogo com a tradição. Gostaria de saber qual sua opinião à respeito dessa leitura.

    • Fernanda, concordo com você quando diz que o novo formato busca uma atualização. O fato de a plataforma virtual deixar de ser um suporte auxiliar e passar a ser o principal exigiu uma revista mais dinâmica que usufruísse das possibilidades da web e eles estão atendendo bem essa demanda. Esse sem dúvida é um diferencial. Ainda mais porque ela se estende também em formato de Blog, no qual a presenta como gênero privilegiado a resenha, e está presente nas redes sociais como Instagram e Facebook. Mas venho notando que a grande mudança da nova proposta com relação a anterior não é seu novo formato, mas a abordagem dada ao conteúdo. Percebo, acompanhando as novas postagens e modificações no site, que agora a revista escolhe temas e analisa seus aspectos, a partir daí investiga como se relacionam com a arte e a cultura. Um caminho bem diferente da versão anterior (que já se diferenciava da primeira Bravo!) que apresentava dossiês privilegiando um artista ou uma arte especificamente. A nova temporada, chamada de “um”, trata, por exemplo, do feminino. O feminino será, então, o ponto de partida para reportagens, vídeos, entrevistas, etc., as questões artísticas e culturais surgirão nesse bojo. É uma transformação de roupa e de corpo. Por isso, fico em dúvida sobre a questão dos “indícios de continuidade”. Parece mais que da revista impressa, descontinuada em 2013, só ficou mesmo o nome.

  2. Pingback: Curadoria em tempos de Internet | Leituras contemporâneas - Narrativas do Século XXI

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