Ana C. e suas tramas

Raquel Machado Galvão

ana-c-image

Um misto de ensaio e síntese de um estudo dissertativo, Ana C.: as tramas da consagração é um livro de autoria da pesquisadora argentina Luciana di Leone publicado em 2008 pela coleção papéis colados da editora 7Letras.

No livro, interessou a Luciana di Leone refletir sobre a construção de mitos no campo da literatura, a partir do estudo de caso de uma figura que ela considerou emblemática no contexto contemporâneo da literatura brasileira: a poeta paradoxal construída como uma espécie de “santa pós-moderna”.

O estudo concentra-se nas leituras, enunciações e intenções presentes nos documentos que compõem o arquivo de Ana Cesar, nas versões dos discursos que foram revelando a sua figura ao longo do tempo, e nas influências diretas que podem exercer no processo de consagração da escritora.

A primeira parte do livro, Aproximações ao nome Ana C., fica imersa na rede de textos publicados por e sobre Ana Cristina Cesar e reflete como as produções dialogam, provocam tensões e suplementam-se entre si. Além disso, Luciana di Leone aponta para uma análise das obras de Ana C. publicadas postumamente e da fortuna editorial publicada no exterior.

Em uma tentativa de ressignificar a obra e a figura de Ana C., di Leone percebe nos textos o reforço em torno da ideia da construção de um mito e aprofunda o debate na apresentação da fortuna crítica sobre Ana Cristina Cesar, analisando sua proliferação, os tipos de discursos envolvidos, a linguagem apresentada e a circulação do nome da autora no meio acadêmico e literário.

A maior qualidade do trabalho da pesquisadora argentina Luciana di Leone, ao tratar do arquivo e das tramas da consagração de Ana Cristina Cesar, é apontar para o processo de consagração literária como algo aberto. Não se trata de um processo natural, mas construído através de uma rede de discursos oficiais ou não. As ideias de di Leone são originais, críticas e objetivas, além de muito bem apuradas junto aos arquivos e à família da escritora. Desde que o livro foi publicado, em 2008, o processo de consagração de Ana Cristina Cesar passa por uma continuidade. Atualmente, a escritora é publicada por uma das maiores editoras do Brasil, a Cia das Letras, e em 2013 teve a sua obra compilada no livro Poética, o que a tornou ainda mais difundida entre os leitores brasileiros. Além disso, no ano corrente a escritora foi homenageada na Festa Literária de Paraty (Flip 2016), uma das mais importantes do mercado editorial nacional e internacional, e teve outros livros reeditados pela Cia das Letras.

Os discursos em torno da figura/obra de Ana Cristina Cesar continuam presentes e recorrentes na mídia e na crítica literária. Resta-nos, dentro das nossas possibilidades de pesquisa, remontá-los nesse movimento contemporâneo muitas vezes disperso, e apreciar a relevante colaboração que Ana Cristina Cesar deixou nas diversas cenas da literatura brasileira, tendo atuado como poeta, revisora, tradutora, pesquisadora e crítica cultural. Labores artísticos e intelectuais que geraram um impacto na cena cultural brasileira das décadas de 1970-1980 e que continuam ecoando até hoje.

Raquel é doutoranda em Teoria e História Literária pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e faz pesquisa sobre as relações entre a crítica, a biografia e a poesia de Ana Cristina César.

Anúncios

2 Respostas para “Ana C. e suas tramas

  1. Fernanda Vasconcelos

    Raquel, seja bem vinda ao blog! Atentei para dois pontos da sua leitura, porém não sei se estou equivocada em minha discussão. O primeiro ponto que chamou a minha atenção foi a indicação de um campo aberto no processo de consagração literária, onde os discursos se atravessam “alimentando” com mitos os entornos da obra/figura do autor. E, o segundo ponto, seria sobre o papel do crítico nesse campo aberto. Espera-se que ele identifique e desloque os discursos propiciando movimentos potentes para embates críticos e ressignificações deles. Pensando nesse aspecto, acredito que o trabalho do crítico é manter-se inquieto, questionando sempre as possibilidades discursivas ao buscar um lugar de encontro mais produtivo. Assim, qual a sua opinião a respeito do papel que o crítico exerce na consagração ou na crítica à formação do mito em torno do escritor?

  2. Oi Fernanda,

    Obrigada pelo comentário. Fico muito satisfeita em participar dessa troca possível no blog do grupo Leituras contemporâneas. Concordo com o que escreveu sobre o papel do crítico. Ao meu ver, é por aí mesmo. Quem lida com crítica literária não pode se isentar e nem fechar a sua opinião em uma redoma de glórias que ocupa o campo literário. A sua pergunta, ao meu ver, é paradoxal. O crítico exerce um papel fundamental na consagração de um escritor e não precisa ser isento. Mas, se posso falar em um “crítico ideal”, é aquele que não cede facilmente às amarras do sistema editorial e que, no mínimo quer entender como as dinâmicas funcionam. O blog coordenado por Luciene é um exemplo disso. A crítica deve existir tendo em vista algo maior, que é questionar o status quo das coisas. Valorizo, particularmente, escritores que pensam assim, que questionam, e que entram em embate com a própria linguagem para nós definida. Não sei se consegui te responder. Mas acredito também não ter uma resposta exata para os seus questionamentos…. Críticos e escritores estão experimentando. Cá estamos. Abraços.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s