O jogo de espelhos em O motivo de Javier Cercas

Circus - Chaplin

Por Davi Santana

 Resenha

 O motivo

Javier Cercas

Francis, 2005.

         O primeiro livro do escritor espanhol Javier Cercas, O motivo, possui uma relação especial com o livro mais famoso do autor, Soldados de Salamina. Quando este foi publicado, em 2001, Javier Cercas era um escritor quase desconhecido. Lançado em 1987, o livro de contos com que ele estreou na literatura permaneceu numa espécie de limbo, do qual só saiu em 2002, quando Cercas, embalado pelo sucesso imprevisto de Soldados de Salamina, o relançou numa versão reduzida: dos cinco contos que compunham o livro original, apenas um passou pelo crivo do autor maduro, justamente o que emprestava o nome à coletânea.

            Além disto, O motivo é citado em Soldados de Salamina num trecho importante em que Roberto Bolaño, grande escritor chileno que é transformado em personagem por Cercas, fala ao próprio Cercas (que é o protagonista do livro), durante uma entrevista que concede ao escritor espanhol, que havia lido dois dos seus livros, El móvil e El inquilino. Do segundo, ele confessa, não se lembrava de muita coisa, do outro, entretanto, lembrava-se de “um conto muito bom sobre um filho da puta que induz um pobre coitado a cometer um crime para escrever um romance“. Este conto é justamente El móvil, isto é, O motivo (Francis, 2005), conforme a tradução para o português de Bárbara Guimarães que está em minha frente neste momento.

            Se estas obras possuem, como afirmei, um parentesco especial, isso não se dá apenas por causa das relações apontadas acima, que são meramente circunstanciais (muito embora o fato de um livro ser citado dentro do outro, do modo como isso é feito, pareça abrir um espaço interessante de associações, como se o autor estivesse dizendo “Olha, existe algo que une estas obras…”) E. de fato, as obras possuem uma série de semelhanças intrínsecas, muito embora, como afirma Francisco Rico no posfácio a O motivo, quem quer que chegue a esta novela levado pelo livro mais célebre do autor “perceberá mais facilmente as óbvias diferenças do que as não menos claras semelhanças. A principal dessas semelhanças, continua, é que ambos os livros têm como eixo central o ato de escrever uma narrativa – a própria narrativa que se está lendo – em confronto volúvel com a realidade”.

            Assim como Javier Cercas (o personagem) passa todo o relato de Soldados de Salamina preparando a composição de um relato sobre Rafael Sánches Mazas, n’O motivo, acompanhamos o processo de ideação e preparação de uma novela levado à cabo por Álvaro, o protagonista da novela. Álvaro é um advogado de profissão, que elege a literatura como o seu verdadeiro trabalho. Levado por uma ambição desmedida e piegas, ele projeta a escrita de um romance que abalará as estruturas da literatura espanhola.

            Como argumento de seu romance, elege a história de um escritor ambicioso que tenta escrever um romance ambicioso. Além do escritor, sua novela tem mais três personagens, todos moradores do mesmo edifício: um senhor austero que vive sozinho no último andar, onde mantém uma fortuna avaramente trancafiada num cofre, e um casal em crise financeira que mora no mesmo andar do escritor e que vê sua paz conjugal destruída paulatinamente, à medida que o escritor avança na escrita do seu romance.

            A partir daí, o relato desenvolve um paralelismo crescente entre o romance dentro do romance de Álvaro e o que se passa no plano real (i.e., a realidade do universo ficcional), o que cria um jogo de espelhos interessantíssimo. A começar pelo fato de Álvaro escolher como modelos para os personagens de seu romance pessoas reais, que moram no mesmo edifício que ele: o sr. Monteiro, um velho avarento, dono de uma pequena fortuna, que mora sozinho num apartamento do último andar e um casal  (Enrique e Irene Casares) vizinho de andar de Álvaro. Assim, à medida que o relato avança, os acontecimentos que estavam planejados por Álvaro para se darem no romance começam a acontecer também à sua volta.

            Escrito em terceira pessoa num estilo entre irônico e impessoal, esta novela demonstra laivos de virtuosismo no que diz respeito à estruturação do argumento, que é executado de maneira primorosa, a despeito do nível de exigência imposto pela forma. Devido a essa composição rígida, irmã dos romances policiais, eu não poderia revelar o final do romance sem furtar aos leitores do blog que quiserem ler O motivo pela primeira vez o prazer de serem surpreendidos com o desfecho da novela. De modo que me abstenho de uma leitura completa da obra na esperança de que essa resenha estimule novos leitores.

            O que eu posso dizer, no entanto, é que um dos grandes méritos dessa novela é instaurar uma ambiguidade quanto à questão de que se é Álvaro que provoca essas semelhanças, forçando seus vizinhos a agirem conforme o romance que planejara, ou se elas são causadas por uma instância fantástica. Para reforçar essa ambiguidade o autor dá indicações, ao longo do livro, tanto pra uma opção como pra outra. Nesta ambiguidade se percebe a predileção do autor pelo tema do confronto entre a ficção e a realidade; tema que Javier Cercas irá retomar, a partir de outras perspectivas e estratégias, em livros posteriores. O que faz dessa novela uma boa porta de entrada para o universo ficcional do autor, bem como para os interessados em estudar sua obra. Mas o seu interesse não se restringe aos especialistas. Muito pelo contrário, O motivo é uma leitura que tem valor por si só, pela importância dos temas e pela maneira como os aborda.

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