Histórias e memórias em Azul-corvo, de Adriana Lisboa

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Por Neila Brail Bruno

Azul-corvo foi publicado pela primeira vez em 2010 pela editora Rocco e relançado em 2014 pela editora Alfaguara. O romance conta a história de uma adolescente de treze anos, Evangelina (também chamada de Vanja), que, após o falecimento da mãe, muda-se do Brasil para os Estados Unidos para viver com o ex-padrasto Fernando no estado do Colorado. O verdadeiro intuito de sua mudança, no entanto, é encontrar o pai biológico. Durante essa busca, Vanja recorda-se de acontecimentos do passado, especialmente no que se refere a fatos relacionados à própria mãe, Suzana, acontecimentos que sempre se destacam, no enredo do livro, pela riqueza de detalhes.

Adriana Lisboa tematiza em Azul-corvo questões históricas diretamente ligadas às operações militares ocorridas na Amazônia durante a Guerrilha do Araguaia. Nesse livro, ao pôr Fernando, um dos protagonistas da história, como guerrilheiro, a autora joga com a mescla entre ficção e realidade, já que muitos outros relatos surgem na narrativa sobre esse período histórico. Tais fatos, apresentados em um texto ficcional, fazem parte de um imaginário coletivo do qual a autora se apropriou para dar mais verossimilhança à história narrada.

 Fernando vai revelando algumas histórias do Partido Comunista do Brasil (PC do B) bem como as torturas impostas aos fundadores da União pela Liberdade e pelos Direitos do Povo (ULDP): “Quem se negava a colaborar apanhava. Às vezes era colocado de cabeça para baixo dentro de tambores cheios d’água. Enfiado dentro de um daqueles buracos do Vietnã, com arame farpado por cima”.

 No romance, o sujeito que rememora a própria história traz as marcas do passado, que é peça-chave da narrativa e constitui o presente das personagens:“Eu tinha treze anos. Ter treze anos é como estar no meio de lugar nenhum. O que se acentuava ao fato de eu estar no meio de lugar nenhum”.

É na sua vivência de trânsito e de deslocamentos que Evangelina cria o tempo da própria história. A narrativa evolui de modo que as situações vividas pela protagonista nos Estados Unidos com Fernando (tempo presente da narrativa) se entrelacem com as memórias de Fernando e da própria Vanja (tempo passado da história).

Essa imbricação entre o passado e o presente também está configurada na trama do próprio romance, já que as memórias da personagem Evangelina se apresentam a partir de recuos e avanços temporais. Um efeito de anacronia caracteriza a narrativa, pois desde o primeiro capítulo, ao anunciar que “o ano começou em julho”, a personagem regressa várias vezes ao passado na tentativa de justificar o fato de estar presente em uma casa, cidade e país que não lhe pertenciam.

LISBOA, Adriana. Azul-corvo. Rio de Janeiro: Rocco, 2010.

 

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Uma resposta para “Histórias e memórias em Azul-corvo, de Adriana Lisboa

  1. Muito boa resenha, Neila.
    Comprei o livro recentemente e não vejo a hora de lê-lo para depois podermos discuti-lo!

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