A língua que cria mundos

larissa

A passagem tensa dos corpos

Carlos de Brito e Mello

Companhia das Letras, 2009.

 

Por Larissa Nakamura

“A morte faz restos, e os restos concernem a mim”

  O texto desta é semana é a resenha do livro A passagem tensa dos corpos de Carlos de Brito e Mello. Trata-se do primeiro romance do autor, vencedor do prêmio  Governo de Minas Gerais de Literatura e finalista do Portugal Telecom,  Jabuti e Prêmio São Paulo de Literatura. Mello é professor universitário e também atua no Coletivo Xepa, associado às artes plásticas.

Antes de tudo, é preciso avisar aos leitores que o livro foge do que se espera de narrativas mais convencionais, principalmente por sua estrutura formal.  Capítulos curtos, linguagem fragmentada, uma pitada de humor negro e cenáriosnonsense. Assim, o leitor percorre a história de maneira vertiginosa e tem uma experiência literária que pode causar estranheza e desconforto. Sem querer darspoilers: é necessário não esperar respostas ou esclarecimentos, pois o livro garante ao leitor somente a possibilidade de diversas suposições e, ao final, ficamos apenas com situações absolutamente irresolutas.

O enredo do livro, que aparenta ser simples, carrega um grande trunfo: o narrador-personagem. A discussão sobre este nos garante a possibilidade de leitura sobre o próprio ato de escrita e o papel que o escritor exige/espera de si enquanto artista.

Mas vamos à trama: o narrador inominado (que aqui pode ser encarado como a Morte ou um espírito fantasma) registra e realiza, apenas com o único órgão/pedaço de corpo que possui, a língua, o trabalho de passagem de pessoas que morreram recentemente nas cidades do estado de Minas Gerais. Tal ofício permite que aos poucos ele possa constituir um corpo e esta é sua principal meta. Certo dia, se depara com a morte de um pai de família. Mas os parentes do morto fazem a vida seguir normalmente, não há enterro e, embora demonstrem plena consciência do que ocorrera, o cadáver continua a apodrecer na sala de jantar dia após dia. Eis que o narrador, não só curioso com o mistério que ronda as condições do falecimento, mas dependente do encerramento do cumprimento do rito da morte pelos familiares para seguir com seu “trabalho”, permanece na casa e, em meio a isso, gradativamente vai revelando o cotidiano esdrúxulo da família, como também breves flashbacks do passado do narrador.

É a figura inquietante do narrador que abre caminhos para uma análise mais densa da obra, embora, claro, haja outros elementos passíveis de investigação. É possível arriscar que embora o argumento principal da trama seja a morte, a leitura nos confere a emergência da vida diante dos despojos do fim. O que resta é muito pouco: o narrador-língua e os fragmentos de histórias são as sobras do que antes fora vivo e persiste por meio da narrativa:  “Sou um excluído que produz um discurso. A palavra é o único indício da minha presença, e é por meio dela que toda ação e toda matéria podem aqui se realizar.”

O narrador é por vezes obcecado ao que é tátil, ao que é vivo e aos restos que os mortais deixam escapar (comida, dejetos, secreções etc.). A língua se apresenta como uma força indispensável à existência, criando mundos e dando sentido a eles, já que o  saldo residual das experiências de vida e de morte é o que alimenta o exercício do narrar.

Mas uma das vantagens do livro é a pluralidade de perspectivas a serem exploradas na leitura. Carlos de Brito e Mello estreia no romance com estilo e linguagem particulares, apresentando um inquietante modus faciendi literário que merece ser apreciado.

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