Oficinas de criação literária: esboços de escritor

rascunho da hora da estrela

Por Neila Brasil

É notável a crescente oferta de oficinas literárias na cena contemporânea brasileira. No Brasil, um dos nomes de destaque é Luiz Antônio de Assis Brasil, que vem ajudando a formar escritores de diferentes gerações. A partir de 1985, Assis Brasil abriu a primeira turma da “Oficina da PUC”, em Porto Alegre, vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Letras. Se, no início, as oficinas eram abertas para o público em geral, hoje é preciso candidatar-se a um processo seletivo.

As oficinas ministradas por Assis Brasil têm ganhado notoriedade ao longo desses trinta anos. Escritores como Michel Laub, Amilcar Bettega, Cíntia Moscovich, Daniel Galera, Paulo Scott e Carol Bensimon são alguns exemplos de autores que têm conseguido destaque no cenário nacional e que passaram pela “Oficina da PUC”. Em depoimento ao site ZH Entretenimento sobre o trabalho de Assis Brasil, o escritor Michel Laub afirmou: “Ele foi a pessoa que mais me ajudou no início da carreira. A oficina me tornou um leitor melhor, no mínimo, e portanto um escritor melhor – considerando que escrever é ler o próprio trabalho o tempo todo, julgando o que presta e o que deve ser jogado fora”.

A oficina literária também pode ser entendida como uma espaço de formação da carreira do escritor. Além da muitas oficinas ministradas por autores que também passaram pela experiência de formação das oficinas,  também é possível encontrar oficinas de criação literária on-line. Adriana Lisboa, escritora carioca ofereceu, pela internet, uma dessas oficinas que consistia em encontros semanais virtuais, com duas horas de duração por encontro, durante quatro meses. Nas oficinas são discutidos elementos básicos da escrita de ficção e o resultado desses encontros deu origem ao e-book 14 novos autores brasileiros, lançado pela Mombak Editora.

Na apresentação ao volume, Lisboa observa que “a maior carência de um escritor acho que é a de um par de olhos ou ouvidos com que se possa compartilhar um trabalho e perguntar aquele sincero ‘e então?’ – para em seguida ouvir, com sorte, uma crítica sincera, pormenorizada, construtiva, arguta (embora não necessariamente agradável). O texto sai daí revigorado, livre do abismo do próprio umbigo. O mundo é vasto, ainda que seja uma bolinha de gude”.

As oficinas podem se configurar como sessões conjuntas de análise crítica dos textos contribuindo assim para a formação e o amadurecimento da carreira literária dos escritores, já que muitos escritores contemporâneos confirmam o quanto essas oficinas podem contribuir para a profissionalização. Podemos, então, arriscar dizer que tais espaços são interessantes para o debate do fazer literário e possibilitam compreender o trabalho de outros escritores, seu surgimento e atuação no campo literário.

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10 Respostas para “Oficinas de criação literária: esboços de escritor

  1. Neila, tive a oportunidade de assistir uma mesa em que o professor Assis Brasil participou. É bastante curioso como hoje as oficinas literárias se tornaram um ponto importante na construção de um nome de autor, e ainda mais, como elas também criam uma ideia de que a autoria já não está ligada a um autor dotado de algum tipo de inspiração, um autor que não depende de uma genialidade transcendental como já foi bastante especulado no campo das artes e Literatura. Lembro que na mesa, Assis Brasil falava sobre a expectativa dos participantes da oficina em criar textos exemplares, mas que muitas vezes os alunos ficavam frustados em, por exemplo, não conseguirem escrever em terceira pessoa, rs

    • Olá Débora, Assis Brasil é um nome de destaque entre os ministrantes de oficinas literárias. Há trinta anos o professor e escritor vem ministrando essas oficinas e colaborando com a formação de muitos autores.

  2. Elizangela Santos

    As oficinas literárias, enquanto espaço que oportuniza discussões sobre o fazer literário, mais que contribuir com a formação do escritor e sua capacitação, põem em xeque alguns estereótipos em relação à escrita. Assim, a profissionalização do escritor vai ganhando espaço, posto que o fazer literário é encarado como labor, desfazendo a visão romântica de que a autoria é resultado de inspiração e só. As trocas, os debates que as oficinas proporcionam retiram a aura de iluminação do autor, encarando-o como profissional que precisa pensar sobre seu ofício e que tem condições de aperfeiçoá-lo.

    • Olá Elizangela, realmente muitos escritores na busca pela profissionalização acabam investindo em oficinas literárias. Acredito que seja uma oportunidade de trocas de experiências e muito aprendizado.

  3. Interessante pensar no escritor como alguém que, em conjunto com outros escritores, pode estar refletindo acerca do processo de produção e testando novas formas e novos modos de fazer literatura. Nunca participei de oficinas de criação literária, mas imagino que devem ser verdadeiros laboratórios de criação artística. Fico pensando em quantas pessoas, nesses espaços, descobriram habilidades que julgavam ser específicas de alguns poucos, daqueles considerados grandes autores. Em um país como o Brasil, em que o medo da escrita parece barrar muito da criatividade individual, a popularização dessas oficinas é, sem dúvida, uma estratégia viável no sentido não só de formar novos escritores, mas também de contribuir para a formação de leitores mais eficientes.

    • Olá Ana, obrigada pela participação. Realmente as oficinas acabam se tornando uma maneira de pensar em “conjunto” a Literatura. Uma experiência que é muito válida para quem pretende enveredar nesse campo da escrita.

  4. Infelizmente não temos na Bahia escolas para escritores iniciantes. E essas oficinas literárias é uma grande iniciativa. Certamente muito ajudam àqueles que estão começando suas carreiras e ainda têm tantas dúvidas. Aliás, o autor nunca deixa de ter dúvidas. Ele está sempre buscando, procurando, reinventando. E como disse a querida e competente colega Adriana Lisboa, precisamos de um par de olhos alheio para mostrar o nosso trabalho, para dirimir uma dúvida, ou até amenizar nossas expectativas. As oficinas são importantíssimas, sem dúvida.

    • Achel Tinoco, seja bem vindo as discussões do blog Leituras Contemporâneas. Realmente é uma pena que não temos na Bahia oficinas literárias. Vejo as oficinas como um espaço de trocas, onde escritores iniciantes podem aprender muito.

  5. Neila! Parabens pelo texto. Feliz pela abordagem construida. Grato em saber que outros profissionais promovem esse tipo de oficina. Comecei a faze-la como professor e tenho compartilhado essas vivencias em Minas e Bahia. Recordo-me que tive a sua ilustre presenca na inaugueacao da Editora Ouropretear e lancamento de sua obra, Maricota, simultaneamente no 12 de outubro de 2014, na Casa da Opera/ teatro mais antigo da America Latina.
    A Ouropretear que contribuir com a formacao e o desenvolvimento de artistas da palavra em todo territorio nacional.
    Assim sendo, convido-a para integrar nossa equipe de oficineiro e membro do Conselho Editorial.
    Afetuosamente,

    Alderacy Junior

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