Autor, editor e agente literário de si mesmo

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Por Marília Costa

Bruno de Moura é poeta, baiano, estudante de administração e distribui seus textos de forma marginal pela cidade de Salvador e pelos eventos literários que frequenta. Bruno começou a escrever aos quinze anos e aos dezoitos anos passou a colar cartazes pela cidade com poemas de sua própria autoria, para ele, a poesia deve ser o mais coloquial possível. Inspirado pelo que identifica como ideias filosóficas, faz questão de adaptá-las à nossa realidade.

Bruno se considera um artista independente. Ele mesmo produziu e editou cinco livretos com os seus poemas: Poesia Analógica (2015), Miopia (2013), Poliamor (2014), Dos amores que foram embora e não voltam mais (2014) e Pequenas estórias (2015). O autor planeja lançar um livro de crônicas, mas diz que não contará com o apoio de nenhuma editora.

“Eu sou artista independente, boicoto editoras! Esse ano vai sair um livro de crônicas, ele terá um melhor acabamento, mas não para dizer que lancei um livro. Interesso-me pelo conteúdo artístico. Tudo que faço tem uma estética.” (MOURA, 2016)

Durante algum tempo, autor distribuía gratuitamente seus livretos em saraus e aos amigos, mas atualmente os vende a preços populares. Além disso, para divulgar os textos, faz uso das redes sociais e o ritmo de publicação é quase simultâneo ao de sua produção. Para Bruno, a estética é aquilo que busca para traduzir o que sente. No momento, está trabalhando em “Orquestra da saudade”, um poema “fast-food”, como o próprio autor define. Salvador é o pano de fundo de suas criações, está presente nas postagens da internet, nos cartazes que espalha pelas ruas e nos vídeos que planeja fazer.

Uma rápida busca no Google basta para termos uma ideia de como a lista de sites que oferecem oficinas, workshops, tutoriais de como editar o próprio livro é gigantesca. Parece já existir um mercado estruturado em torno disso. Como afirma Ana Claudia Viegas, a atuação multimídia do autor que, além de produzir sua obra, encarrega-se de pensar estratégias de divulgação e circulação de suas produções e de seu nome, parece ser uma tendência da literatura contemporânea. Um fator importante para o que parece ser uma nova condição da autoria na cena contemporânea é o uso da internet como suporte. Nesse sentido, os textos de Bruno de Moura dizem muito do tempo presente e do funcionamento do campo literário hoje.

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6 Respostas para “Autor, editor e agente literário de si mesmo

  1. Marília parabéns pelo texto. Achei bem interessante. Essa temática me fez pensar em uma discussão levantada por Schollhammer em “Ficção brasileira contemporânea”, onde o estudioso aponta uma característica bem presente nos escritores da geração mais presente que é uma preocupação pela criação da própria presença. Assim, não é por acaso que tanto o Bruno de Moura como outros autores façam uso das novas tecnologias e das redes sociais. Essas páginas eletrônicas possibilitam a divulgação e a circulação de textos, desviando-se dos mecanismos do mercado tradicional do livro, bem como do processo seletivo realizado pelas editoras.

  2. Marília achei bem sugestivo o tema deste post: “Autor, editor e agente literário de si mesmo”. Em um post anterior aqui do blog: “Agentes literários: o trabalho além do ponto final”, discutiu-se a importância dos agentes literários para a fomentação da carreira de um autor. Hoje você apresenta um texto onde o próprio autor é agente literário de si mesmo, ou seja, esse autor é quem se promove. Normal em tempos de facebook, twitter, hi5, goo, tumblr, e tantas outras páginas. As redes sociais também permitem e facilita a divulgação de textos de autores que se gerenciam como é o caso do Bruno citado aqui neste post.

  3. Marília, você traz aí termos que dão muito pano para manga e longas discussões e debates. O trabalho de Bruno de Moura também é louvável. Todavia, são assuntos e termos que precisam ser debatidos com o devido cuidado: “O que é o Autor?” Um editor? O que é efetivamente um Agente Literário? São paradigmas cambiantes e que em grande medida estão em constantes mudanças ao longo do tempo, especialmente com as novas configurações tanto no campo literário como também no modo como os autores se movimentam na cultura e nos diferentes meios e redes sociais de comunicações a partir dos novos dispositivos eletrônicos para divulgação de produtos e conteúdos. Porque, vejamos, as redes sociais e a divulgação boca a boca são ações feitas tanto por pessoas como Bruno de Moura quanto por autores como Antônio Torres, por exemplo, um escritor da ABL e de vasta obra literária. Fiz esta primeira consideração para a gente não descambar para um discurso maniqueísta, ou seja, um suposto autor, editor e agente literário amalgamados num único sujeito contra as editoras e o mercado editorial como dragões que devem ser exterminados para sempre. “Sou um autor independente, boicoto editoras”. Um discurso como esse além de ser pretensioso soa como maniqueísta. Quais editoras? Uma afirmação como essa é muito perigosa, principalmente vinda de alguém ainda em início de careira, digamos assim. Amanhã quando for cortejado por uma editora e um agente literário para publicar todos os seus livros e ser representado, como é, vai rejeitar? Sei não! O fato é que todo esse discurso pode virar poeira e para este mesmo autor esta afirmação pode não ter absolutamente mais nenhuma validade. Não sei. Só o tempo pode nos dar todas essas respostas. Por outro lado, publicação e divulgação independentes são formas e possibilidades dentro do campo literário e artístico, mas não são as únicas nem as mais consideráveis. Também é importante pensar sobre o funcionamento do próprio campo literário com suas regras razoavelmente definidas e complexas embora em constantes mudanças, tais como apontadas em “As Regras da Arte” como escreveu um dia Pierre Bourdieu. Também não devemos esquecer de que o mercado editorial é um negócio assim como o mercado da música e do cinema, como tantos outros, outras afirmações diferentes dessa pode ser um mero ideal romântico, com pouca ou nenhuma validade hoje em dia, ideal ainda perseguindo o calcanhar da literatura desde os tempos em que a literatura ia salvar o mundo e era um mero produto de burguês. Conforme escreveu John Thompson em Mercadores de Cultura a partir de uma longa pesquisa de campo e investigação cuidadosa – Muitos dos livros de grandes autores os quais adoramos e reverenciamos foram pagos grandes quantias para que esses mesmos livros fossem colocados no balcão de frente das livrarias; muitas corporações editorais pagam até 10 mil dólares para que seus livros fiquem na entrada: precisam ser vistos, apreciados e, claro, vendidos, do contrário a editora não terá dinheiro para pagar o autor e todo o seu sistema operacional, e por fim, mais cedo ou mais tarde, deve fechar suas portas. É claro, estou citando uma grande referência dentro do assunto, John Thompson, mas existe por aí diversas outras pesquisas em torno desse assunto, com menor grau de relevância e fôlego, talvez. Penso que o texto seja de fato interessante para se pensar o funcionamento de outras estratégias diferentes daquelas do mercado editorial, assim como outras possibilidades para reestruturar e ao mesmo tempo repensar o campo literário e o mercado editorial como um todo a partir do confronto de ideias dentro do campo artístico e dos diferentes modos de disseminação e pulverização de produtos e conteúdos, a fim de debatermos novos caminhos e reconfigurações dentro do campo literário e das artes como um todo, assim como o seu efetivo funcionamento.

    Deixo como exemplo: A editora independente “Livros do Mal”, organizada por vários autores iniciantes, era as armas e as estratégias que eles tinham naquele momento, depois cada um seguiu seu caminho a partir de contratos com editoras e outras articulações, representações, prêmios, etc. A discussão é ampla e é difícil alongar neste espaço.

  4. Sem dúvida, a “função- autor” é outra hoje. Quando o autor aposta na multiprofissionalização, assumindo o papel de promoter da própria obra e editor de si mesmo, está apontando para modificações mais amplas do campo literário como um todo, como observaram Maria Bela e Neila, citando a indefectível presença das redes sociais na configuração das figuras de autor na cena cultural contemporânea. E, claro, Marcos, a fala aguerrida de Bruno contra o sistema editorial tem a ver com assumir uma posição que marque a singularidade de sua voz. O fato de terminar sendo publicado por uma editora não é ruim a priori e sequer coloca sob suspeita a postura aguerrida assumida hoje. A crítica argentina Josefina Ludmer disse que não há mais campo literário, mas acho que atuações como as de Bruno mostram que estamos dentro e fora ao mesmo tempo do campo literário, dependente ainda de uma reestruturação de seu funcionamento e organização.

  5. Olá amigos, muito bom ler os comentários de vocês. Obrigado! Agora irei rapidamente escrever sobre a minha história com a literatura. Neste ano de 2016 completarei 10 anos de poesia, contos, estórias e por aí vai! Há tempos atrás tive um original negado por várias editoras, sob a alegação de “Não encaixar na proposta da editora”. O que me deixou além de muito chateado, um tanto quanto curioso em saber como essa “qualidade editorial” acontecia. Pois bem, cansado de ser negado por tantas editoras, resolvi inovar: espalhei pela cidade do Salvador – em postes, tapumes, parede, placa de sinalização….. as páginas do original, registrei com uma fotografia e postei na internet(numa sequência pro pessoal poder acompanhar). No primeiro dia, eram dez amigos comentando e curtindo o meu trabalho, uma semana depois eram um mil curtidores de todo o país. Quem é que valoriza o trabalho do autor? O editor ou o leitor? Essa foi a pergunta que fazia a todo momento. Enfim, pra encurtar a conversa depois deste fato, comecei a fazer livretos/fanzines e distribuir/vender em saraus e eventos de arte. Hoje além de escrever e editar, atuo como agitador cultural, produzo com amigos eventos artísticos onde reúno outros autores da cidade, e comercializamos os livretos. Recentemente fomos pra FLICA, participar do evento “Flica Lado B”, dialogando com outros escritores independentes que boicotam editoras tanto quanto eu. Boicotamos por vontade de viver, optamos pelo underground pois existe uma união que nos dão alem da liberdade de publicar qualquer coisa que vier na cabeça, a possibilidade de fazer da nossa forma. E não estou sendo romântico, isto é uma realidade na cena. Não condeno escritores que optam por editoras, mas ser o artista independente que sou, me possibilita realizações de muitos sonhos. O livro que irei lançar neste ano, terá o mesmo acabamento de qualquer outro livro encontrado em uma grande livraria, a diferença é que ele será lançado numa tiragem menor. Se amanhã ou depois, eu vier a ser cortejado por uma editora, vou dizer exatamente o que ouvi; “O meu trabalho não encaixa na proposta da sua editora.”

    No mais, estou nas redes sociais. E para este ano além do livro, estou produzindo um documentário. Acompanhe pelas redes e espero encontra-los na festa de lançamento pra abraça-los!

    Beijo!

  6. Neila, Maria Bela, Marcos, Luciene e Bruno, obrigada pelos comentários de vocês e pela expansão da discussão em torno da função do autor na contemporaneidade. Abraços!

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