Sobre uma estética relacional

tiravanija

Por Elizangela Santos

De acordo com o crítico de arte Nicolas Bourriaud, diretor da Escola Superior de Belas-Artes, em Paris, a produção artística vivencia o tempo de uma estética relacional, cujo foco encontra-se na convivência e interação das manifestações de arte, ou seja, uma sensibilidade coletiva da qual fazem parte novas formas da prática artística. Pensando nisso, será que poderíamos pensar na internet como uma nova forma de mobilização e integração dessa “sensibilidade coletiva” quando se trata de novas formas de práticas artísticas?

Para o crítico, os artistas contemporâneos buscam formas de estar no mundo, apostando na ideia de arte como um campo de trocas. A obra de arte é entendida como princípio dinâmico, construído por meio da interação entre autor, espectador e obra; a obra existe exatamente nessa relação em que o outro/espectador é elemento importante para a realização do objeto artístico.

Assim, Bourriaud chama a atenção para formas de práticas artísticas que colocam em segundo plano conceitos como originalidade e autoria, pois o autor defende uma espécie de ligação da arte com a esfera das relações humanas e seu contexto social. Para o curador, há uma rede colaborativa entre artistas e não-artistas que visa à interação e à produção de subjetividades; deixando de lado o espaço simbólico autônomo e privado das atividades artísticas. Nisso consiste a ideia de uma estética relacional.

Ao acompanhar a produção contemporânea em artes plásticas, Bourriaud percebe que em artistas dos anos 1990, como Pierre Huyghe, Rirkrit Tiravanija, Dominique Gonzalez-Foerster e Maurizio Cattelan, por exemplo, existe a noção comum de arte como campo de trocas. Unindo essa concepção ao espaço que a internet abre para as possibilidades de interação, pode-se creditar a essa ferramenta as novas experimentações no campo artístico.arena-felix-gonzc3a1lez-torres

Um dos exemplos comentados pelo curador francês é a exposição de Gonzalez-Torres, na galeria Jennifer Flay, em 1993. Aí, o artista montou um quadrilátero no meio da galeria, delimitado por lâmpadas acessas e disponibilizou walkmans aos visitantes para que dançassem em silêncio sob as guirlandas de luz. O “espectador” é levado a interagir com a obra, completando-a como elemento integrante desta.

O espaço das obras desse artista, de acordo com o curador, “é elaborado na intersubjetividade, na resposta emocional, comportamental e histórica que o espectador dá à experiência proposta”.

A estética relacional de Bourriaud interessa a meu trabalho na medida em que gostaria de pensar a literatura contemporânea sob um novo paradigma de produção, circulação e recepção, considerando a possibilidade de ler as produções literárias contemporâneas sob a lógica da pós-produção, para usar outra nomenclatura cara ao crítico francês, em que as noções de autoria e originalidade são repensadas.

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