Literatura e autoficção

Por Luciene Azevedo

Não é difícil encontrar hoje opiniões criticas que concordariam com certa desliteraturização da literatura em virtude da avassaladora incidência das narrativas em primeira pessoa no cenário contemporâneo. Acusando-as de regojizo com a exploração detalhada das menores “emoções, as mais insignificantes experiências sexuais, as reminiscências mais fúteis”, Todorov, em seu mea culpa estruturalista, toma a autoficção como bode expiatório do perigo que ameaça o literário.

Evocar a morte da Literatura não é coisa tão nova assim. Sua exaustão já estava tematizada pelo crítico americano John Barth em um artigo de 1984 e, nas anotações à preparação de seu seminário sobre o romance no College de France, Roland Barthes reconhece alguns “sinais de desuso”, um “sentimento de que a literatura, como Força Ativa, Mito vivo, está, não em crise (fórmula fácil demais), mas talvez em vias de morrer.”

Em outro momento do mesmo conjunto de anotações às aulas do curso sobre a preparação do Romance, Barthes comenta que há uma “certa transformação do Biográfico”, que parece se imiscuir em algumas obras importantes do século XX (além de Proust, claro, Barthes está pensando também em Gide), mas o mais impressionante é o diagnóstico certeiro que faz sobre o que chama de uma “renovação da relação vida/obra”, como se estivesse revisando a si mesmo, a suas proposições sobre a célebre morte do autor, sugerindo que “a posição da vida como obra, aparece pouco a pouco, como um verdadeiro deslocamento histórico dos valores, dos preconceitos literários”.

No caso da operação autoficcional levada a cabo em muitas narrativas contemporâneas, o próprio eu é absorvido e dramatizado ficcionalmente. Menos que prestar reverência ao velho “documentarismo positivista” ou servir como panegírico à era do narcisismo, o uso de elementos não ficcionais provoca um curto-circuito na ideia de literatura moderna sob a qual ainda hoje vivemos, pois essa ideia teve como fundamento a legitimação da ficção como algo que se fundamentava no anticonfessionalismo e no antidocumental. “A arte cria a distância do eu”, diz um verso de Paul Celan.

As narrativas autoficcionais valem-se da chancela da ficção, de sua reconhecida capacidade de consumir outros gêneros, para fazer a literatura provar de seu próprio veneno. Arriscando-se perigosamente à pura mistificação, as narrativas autoficcionais continuam requerendo a etiqueta do romance, mas aproveitam para falsificar a moeda literária, enxertando gêneros não-ficcionais (o ensaio, o diário, a autobiografia) e formando no tecido narrativo pequenos grumos de autonomia: são verdadeiros ensaios, diários e autobiografias contaminados de ficção, de literatura.

Muito mais do que considerar o hibridismo da autoficção como marca característica de  uma desrealização discursiva da literatura, apostando na indistinção total entre a ficção e a realidade ou na impossibilidade de circunscrever zonas de operação artísticas, acredito que o hibridismo é um dispositivo que opera uma expansão, uma transformação das características modernas que comumente, há mais de 300 anos associamos à literatura, como a autorreferencialidade ou o estrito rigor da construção formal do objeto, por exemplo.

Tomemos, por exemplo, as narrativas de Ben Lerner, escritor americano que teve seu primeiro romance, Estação Atocha, traduzido no Brasil. Aí, as características do protagonista podem facilmente ser associadas as do autor, pois é fácil identificar a história de Adam Gordon a do próprio Ben Lerner: um jovem escritor contemplado com uma bolsa para passar um ano na Espanha a fim de escrever um livro de poemas. O escritor sente-se uma fraude e essa mesma experiência fraudulenta reaparece tematizada no segundo livro do autor, 10:04. “Eu convoco a fusão do autor histórico com o autor ficcional”, afirma Lerner.

E não é só na condição de autor que Lerner fala de uma estranheza em relação à condição do literário hoje. Na resenha que escreveu para os três primeiros volumes da hexalogia do autor norueguês Karl Ove Knausgaard, Lerner se pergunta se há uma forma estética em Minha Luta ou se se trata apenas de uma coisa após a outra. Dando por certo que não se pode tratar a narrativa como uma ficção no sentido convencional, Lerner centra sua atenção no que chama de uma disposição antiliterária por trás do projeto de Karl Ove e entende que os volumes de Minha Luta funcionam como uma espécie de crônica que ilustra como o autor dá as costas ao gênero romance.

Explorar, portanto, as operações narrativas contemporãneas me parece um convite feito pelas produções atuais que mantendo um efeito-de-literatura, usam a própria literatura, sua estabilidade histórica associada à alta modernidade, para recodificar o próprio sentido do literário, redesenhando uma transformação do objeto literário na direção de algo ainda não bem definido, “uma literatura que vem após a literatura”, como afirma Lars Lyer em artigo à revista Serrote publicada em 2012.

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3 Respostas para “Literatura e autoficção

  1. Viver, me parece, uma autoficção em tempo integral. Escrever também. Pensar na “morte da literatura” é não perceber os ricos pontos de interseção entre as artes (que já deveriam ter um novo nome). A literatura, ao meu ver, nunca esteve tão viva, tão presente nas produções artísticas contemporâneas. Talvez seja preciso, de fato, abandonar a noção de verdade, já que tudo que existe por aí – na nosso cotidiano de vivências e leituras – é fruto de uma criação, uma ficcionalização sem fim. Acompanhando séries audiovisuais-virtuais-contemporâneas como Sense8 e Mr. Robot acabei observando de forma transparente um lugar de diálogo da literatura já consolidado com a produção audiovisual. Nada novo, mas parece que agora tudo está se materializando em imagens e diálogos. Catarses, encontros, aprendizados, toda aquela sensação possibilitada pela experiência autor-livro-leitor se faz no cenário do espectador. As experiências contemporâneas com a arte são transformadoras para todos os envolvidos. A palavra “hibridismo” e os seus tantos conceitos se aplicam para pensarmos o momento da literatura e da (auto)ficção.

    • Obrigada pelo comentário, Raquel. Eu também assisto a muita série de televisão e me impressiona o modo como recursos audiovisuais de entretenimento têm lançado mão de procedimentos sofisticados que parecem sugados da literatura do alto modernismo. Vc tem razão: a mistura de vozes em Mr.Robot parece simular a técnica do monólogo interior e o que dizer do famoso episódio da mosca em breaking bad em que a duração temporal é totalmente subvertida, se consideramos um típico produto de massa? Minha hipótese é de que as grandes inovações técnicas surgidas no alto modernismo estão sendo reaproveitadas e incorporadas a outras formas: séries, Hqs… E quando isso acontece a literatura se desloca na direção de outros procedimentos….

  2. Pingback: Forma e experiência | Leituras contemporâneas - Narrativas do Século XXI

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