Eu Googlo, tú Googlas, nós Googlamos: sobre a poesia de Angélica Freitas.

debora

Por Débora Molina

Hoje, a plataforma da web mais visitada no mundo é o Google. Utilizamos o Google para obter receitas de bolo, bulas de remédios, para procurar endereços, pessoas, saber quem foi Isaac Newton e até mesmo os passos de como fazer um bom nó. Quem nunca escreveu algum texto com o auxílio de dezenas de abas do Google que continham variados links sobre determinado assunto? Ou ainda para pesquisar sites que embora saibamos o endereço preferimos acessar pelo link oferecido pelo Google? O Google é um recurso tão utilizado que pesquisar no famoso site deu origem a um novo verbo: Googlar. E a googlagem não ficou de fora da escrita literária trazendo para o campo mais uma possibilidade de fazer literatura no contemporâneo.

No ano de 2013, a autora gaúcha Angélica Freitas, no livro O útero é do tamanho de punho, utilizou a ferramenta para escrever suas poesias. ‘3 poemas com auxílio do google’, intitulados ‘A mulher vai’, ‘A mulher pensa’ e ‘A mulher quer’, buscam representar os olhares lançados sobre o mulher na sociedade contemporânea. Em uma declaração no Fórum de Literatura contemporânea desse ano, Freitas nos contou que enquanto escrevia o livro, decidiu pesquisar como eram escritos os textos sobre o corpo da mulher que estavam na internet, foi então que colocou no campo de busca as frases iniciais de cada poema entre aspas obtendo diversos resultados. Utilizando o procedimento de recorta e cola, Angélica Freitas selecionou algumas das frases que apareceram na pesquisa e tentou dar uma ordem que desse algum ‘resultado’ para a escrita:

A mulher quer

a mulher quer ser amada

a mulher quer um cara rico

a mulher quer conquistar um homem

a mulher quer um homem

a mulher quer sexo

a mulher quer tanto sexo quanto o homem

a mulher quer que a preparação para o sexo aconteça lentamente

a mulher quer ser possuída

a mulher quer um macho que a lidere

a mulher quer casar

a mulher quer que o marido seja seu companheiro

a mulher quer um cavalheiro que cuide dela

a mulher quer amar os filhos, o homem e o lar

a mulher quer conversar pra discutir a relação

a mulher quer conversa e o botafogo quer ganhar do flamengo

a mulher quer apenas que você escute

a mulher quer algo mais do que isso, quer amor, carinho

a mulher quer segurança

a mulher quer mexer no seu e-mail

a mulher quer estabilidade

a mulher quer nextel

a mulher quer ter um cartão de crédito

a mulher quer tudo

a mulher quer ser valorizada e respeitada

a mulher quer se separar

a mulher quer ganhar, decidir e consumir mais

a mulher quer se suicidar

(FREITAS, p. 72, 2013).

As frases reproduzem uma teia de clichês que envolve o desejo feminino. Como sabemos, a pesquisa do Google apresenta os resultados de acordo com uma ‘hierarquia’ relacionada ao número de acessos de cada site. Deste modo, ao pesquisar e recortar as frases sobre ‘a mulher quer’, Angélica Freitas trouxe para o poema o recorte do retrato da sociedade machista em que vivemos, afinal, tudo o que a mulher quer é o que escreveram sobre ela.

A apropriação de frases retiradas de uma ferramenta virtual parece brincar com o conceito de autoria e também com o próprio fazer poético, cujo procedimento principal, no caso desses poemas, está baseado no recorte e cole.

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Uma resposta para “Eu Googlo, tú Googlas, nós Googlamos: sobre a poesia de Angélica Freitas.

  1. É quase redundante falar da presença avassaladora da internet em nossa vida cotidiana. Como a literatura faz parte da vida, ela não poderia ficar imune a essa presença. O post de Débora comenta um procedimento comum do nosso dia a dia virtual: o cut, copy and paste apropriado pela poesia de Freitas e outros escritores. Mas também é comum ouvir de estudiosos interessados no que pode advir desse diálogo entre a internet e a literatura que é ainda é difícil encontrar algo que ultrapasse o mero uso da tela do computador como suporte de publicação ou mesmo a pura incorporação de linguagens ou ferramentas próprias do universo virtual como acontece com narrativas que simulam, por exemplo, uma troca de mensagens eletrônicas. Por isso, o trabalho de Elizangela, desenvolvido como tese de doutorado, é tão interessante. Usando o pressuposto desenvolvido por Flora Sussekind em seu livro Cinematógrafo de Letras, Elizangela quer investigar as diferentes formas de diálogo entre a internet e a literatura, tal como Sussekind fez com as inovações técnicas do final do século XIX e a literatura do período. A grande questão é como a literatura pode incorporar um modus operandi próprio à rede em suas formas narrativas e se isso pode mudar o que lemos como literatura hoje.

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