Apropriações (não) originais

Por Luciene Azevedo

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Em outro post, publicado aqui nesse blog (Ladrão que rouba ladrã0…), Débora referiu-se à noção de gênio não original que dá título ao livro de Marjorie Perloff. Comentava ainda um empreendimento nacional que poderia caber como uma luva no argumento crítico de Perloff. Trata-se do romance Sujeito Oculto de Cristiane Costa que, na sua composição, vale-se da problematização de um conjunto de palavras chave-que ronda os capítulos do livro de Perloff: a apropriação, a originalidade, a criatividade autoral na produção de uma obra.

Considerando o pressuposto básico de Perloff de que a ‘originalidade’, segundo a inventio do século XXI,  não estaria na criação de uma forma nova, mas na capacidade de manipular formas já existentes operando sobre elas, apropriando-se delas para recriá-las, o livro de Agustín Fernández Mallo, El Hacedor (de Borges), Remake pode servir como lenha que alimenta essa fogueira.

No Brasil, Mallo é mais conhecido pela Trilogia Nocilla, cujos dois primeiros volumes, Nocilla Dream e Nocilla Experience foram traduzidos pela Companhia das Letras. O primeiro livro publicado por Mallo após o sucesso mundial da trilogia foi o remake do livro de Borges. Mas o que significa fazer o remake de um livro? Manipulando suas páginas percebemos que todos os títulos das narrativas que integram o livro publicado por Jorge Luis Borges em 1960 se repetem no remake de Mallo, além de boa parte do prólogo e do epílogo escritos pelo autor argentino. O que poderia ser considerado uma repetição literal ou uma citação sem aspas repete-se em algumas poucas outras narrativas nas quais o texto de Borges aparece sem nenhuma alteração, literalmente copiado.

A descrição assim, a seco, do procedimento de Mallo parece apontar para uma apropriação indébida da assinatura de Borges. Foi assim que Maria Kodama, viúva de Borges, entendeu a iniciativa do autor espanhol e iniciou um processo por plágio contra a editora Alfaguara e contra o próprio Mallo. Sem pretender levar adiante a discussão, editora e autor decidiram recolher os exemplares do livro que até hoje só pode ser lido em cópias piratas na internet.

A primeira intervenção ao texto de Borges aparece na troca dos nomes do prólogo ao livro. O remake é dedicado a Borges, e é Mallo quem aparece na porta do escritório do autor argentino para entregar-lhe o livro, tal como o encontro com Lugones imaginado por Borges. Mas o procedimento da apropriação parece um pouco mais sofisticado que isso à medida que avançamos na leitura do remake.

Mas analisemos um pouco mais de perto o empreendimento de Mallo. Tomemos como exemplo “Mutaciones”. O original de pouco mais de meia página transforma-se na peça mais longa, e também central, do livro de Mallo. É difícil para o leitor associar o remake de “Mutaciones” a uma reescrita do texto de Borges, pois o texto é outro, ganha a marca da assinatura de outro nome e, no entanto, Borges paira aí fantasmaticamente, à maneira de um teste de Rorschach.

A versão remake de “Mutaciones” descreve três passeios refeitos virtualmente por Mallo com a ajuda de seu Macintosh. O primeiro passeio diz respeito à obra de Robert Smithson, publicada na revista Artforum em 1967, intitulada “Um passeio pelos monumentos de Passaic”, o segundo à reconstituição do mapeamento feito por investigadores à procura de vestígios de radiação após o vazamento na usina nuclear de Ascó na Espanha e no terceiro, o narrador refaz a busca por Ana, personagem do filme “La Aventura” de Antonioni, que desaparece na trama. Vamos acompanhar aqui apenas o primeiro dos passeios.

O relato começa à maneira de um diário de viagem informando ao leitor dados sobre a localização do narrador e os preparativos para o passeio:“Cidade de Nova York, ano de 2009, finais de julho, sete horas da manhã, picadas de mosquito…Preparo o material, confiro se o celular tem bateria suficiente”. Em seguida, o texto parece querer contextualizar a motivação do narrador explicando detalhadamente o empreendimento de Smithson que consistiu em percorrer as ruas de Nova York no final da década de 60, fotografando elementos da paisagem de um bairro do subúrbio a fim de provocar a discussão sobre a noção de monumento. Só depois da justaposição dos dois contextos (o do narrador em 2009 e de Smithson em 1967) ficamos sabendo que o efeito de real construído desde a introdução do relato (lemos, por exemplo, que o narrador ao preparar-se para sair ouve tocar em um volume muito alto no rádio de um carro uma música ouvida por porto-riquenhos) é, na verdade, mero efeito de ficção, pois trata-se de um passeio virtual, feito através do computador, de um telefone celular e com a ajuda do Google Maps: “Teclo no Google as palavras ‘Passaic, Nova Jersey’. Sem muita dificuldade encontro no Google Maps o plano atual da região que corresponde ao que foi percorrido por Smithson”. Mallo faz o que ele próprio chama de uma viagem psicogooglegráfica”. Tendo ao lado a reprodução do texto de Smithson publicada em livro, o narrador refotografa as fotos tiradas pelo artista americano, incorporando-as à narrativa. O que lemos, então, é a simulação do passeio feito pelo artista, agora refeito virtualmente pelo narrador. A narrativa mescla a descrição minuciosa do percurso do próprio Smithson, interpolando a reprodução de sua obra-artigo publicada na revista Artforum e o comentário expandido do processo narrativo de experimentar virtualmente o passeio de Smithson por Passaic.

À medida que somos arrastados para o que parece ser uma estratégia de presentificação do passeio, das ideias de Smithson, da experiência de refacção da caminhada pelo narrador, corroborado pela reprodução de fotos e mapas em reafirmação a um efeito de real, paradoxalmente, o efeito de ficção fica mais evidente quando, utilizando o zoom do Google street view, Mallo fotografa uma passante em uma das ruas pelas quais caminha virtualmente e entabula com ela um diálogo: “Parece que a mulher percebe que estou tirando uma foto dela e imediatamente para disfarçar, me aproximo e pergunto se é de Passaic ou se está apenas de passagem”.

Sem querer negar que a recuperação do relato feita aqui pareça muito distante do original de Borges, é possível, no entanto, identificar nas mutações efetuadas um eco da voz original, pois Mallo parece ter reinventado as lições de Pierre Menard, já que a imprevisibilidade das mutações sugere que a estratégia da apropriação pode renovar as noções de originalidade e criatividade.

Na versão impressa do remake, Mallo sugere aos leitores procurar no youtube alguns vídeos que acompanham as peças escritas, como acontece com “O simulacro”. veja aqui:

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6 Respostas para “Apropriações (não) originais

  1. Olá Luciene. Os títulos de Borges se repetem no remake de Mallo. Tal estratégia eu poderia conceber como apropriação ou cópia? Você considera que a literatura contemporânea, e aí eu destaco a ficção brasileira tem sido original? Até mesmo por que os autores que conheço tais como Cristovão Tezza, Adriana Lisboa e até a Cristiane Costa citada aqui no post estão a todo momento citando e se apropriando de outros discursos? Recentemente tenho acompanhado algumas discussões sobre literatura contemporânea e fico pensando sobre a preocupação que os escritores tem em mostrar-se leitores de obras clássicas. Recentemente estive em uma festa literária e muitos escritores que estavam presentes se diziam leitores de outros autores, afirmando que tais autores influenciaram na escrita. Você acha que os escritores brasileiros estão se apropriando de outros discursos de forma indevida? Até que ponto esta apropriação é positiva ou negativa?

    • Oi, Elane. Muito obrigada por seu comentário. A questão da apropriação como procedimento de criação está voltando à cena literária. Não se trata propriamente de uma novidade: a apropriação foi uma estratégia muito utilizada pela vanguarda. O mais interessante pra mim é pensar a apropriação como um mecanismo que provoca tensões no modo de construção autoral. Harold Bloom falava da “angústia da influência” que rondava os autores que queriam escrever suas próprias obras. É o que você identifica nos autores que citam suas afinidades eletivas clássicas para identificar uma “influência”. Jonathan Lethem, um crítico americano, vem falando de “êxtase da influência”, uma espécie de regozijo de alguns autores em brincarem com a apropriação de textos desses mesmos autores clássicos, sobrepondo-lhes a assinatura do “plagiador”. Enfim, o que quero sugerir é que a apropriação coloca em xeque a própria noção de originalidade que pode estar se deslocando da figura autoral (como centro criador da obra) para o procedimento, o mecanismo da elaboração de escrita. Nesse sentido, a “cópia” pode ser “original”.

  2. Obriagada professora Luciene, foi muito esclarecedora a sua resposta e está servindo para ampliar o meu leque de leituras teóricas e literárias..
    Grande abraço!

  3. Luciene, gostei muito de ler o seu post e perceber a importância de se pensar questões como a apropriação. As invenções de Mallo a partir de outras obras – apesar de polêmica – me parece apontar para possibilidades de criar a partir de outr@s questionando e evidenciando os formatos que estão aí vigentes. Por que não? Vivemos em um campo literário que, muitas vezes, alicerçado em uma quase sagrada “noção de qualidade” quer tornar “menores” aqueles que manipulam as formas já canonizadas. Existe uma suposta questão “ética” no debate, por isso a importância de teorias como a de Perloff, de Barthes, entre outros. Acredito que o processo criativo de Mallo, ao mesmo tempo que questiona a estrutura do campo, elogia suas influências e mostra que é possível criar algo novo e contemporâneo a partir da interferência – assumida – de outras artes. Mutações que aparecem e que nem todos compreendem. A “cópia” realmente pode ser “original”, como comentou. Não teria nenhuma pergunta a fazer sobre o texto, mas indo um pouco em direção ao hyperlink – video do youtube -, saber o que você acha dessa interlocução – e dissolução de fronteiras de gênero – realizada por Mallo. Não é interessante como ele envolve o audiovisual em seu livro e como ele deixa fluir sua obra pelas tecnologias e suportes que são aparatos para as diversas artes?

    • Obrigada pelo comentário, Calila. O experimento de Mallo é interessante também pra mim porque a “expansão” literária, a saída do romance que propõe não é apenas na direção do diálogo interartes, mas também a partir do aproveitamento da sua experiência como usuário da rede, incorporando os mecanismos de navegação na produção do texto.
      Kenneth Goldsmith, que defende a escrita não-criativa, não tem nenhum pudor de dizer que a apropriação é a nova identidade da literatura na era digital do século XXI. Não sei se arriscaria tanto, pois o grande desafio ainda é superar o uso da tela como mero suporte para circulação do texto. Acho que partindo da apropriação de um nome de culto como o de Borges, Mallo conseguiu incorporar a tecnologia para causar um efeito particular de estranhamento em seu próprio texto, apropriado de outro. E embora tenha sido “cassado” por plágio, há muita invenção no seu procedimento.

  4. Feliz por ler este texto. Vem de encontro a minha pesquisa de mestrado na área das artes cênicas onde escrevo uma dramaturgia literária sobre a vida de Virgínia Woolf utilizando como textos-referentes, para essa nova criação, fragmentos dos romances, diários e contos da autora.

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