Filmando a linguagem: o último filme de Jean-Luc Godard.

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Por Débora Molina

Quem conhece o diretor Jean-Luc Godard não se surpreende com sua linguagem cinematográfica. Desde seus primeiros filmes, Godard traz novas maneiras de fazer cinema, inventando novos planos de filmagens e linguagens bastante avessas às convencionais. Em Adeus à linguagem (2014), último filme do diretor francês, não é diferente: um filme esquisito ao quadrado, ou melhor, ao cubo, uma vez que envereda pelo 3D.

Durante o filme, ora acompanhamos o cotidiano banal de um casal, ora os passeios de Roxy (o cachorro do próprio Godard), que ganha protagonismo na exibição, e somos convidados a inúmeras reflexões de cunho político e filosófico.

Utilizando colagens e citações, que já fazem parte da “estética Godard”, o filme polemiza dentre muitas questões os limites da linguagem e mais propriamente os limites da linguagem cinematográfica.

Utilizando a tecnologia 3D, Godard coloca os espectadores entre a crítica e a aceitação das novas tecnologias. A crítica parece evidente na frase de abertura do filme: “Aqueles que não têm imaginação buscam refúgio na realidade”. E a indireta parece acertar em cheio o alvo da nova tecnologia 3D, que, no entanto, é apropriada pelo diretor. Assim, Godard também parece nos dizer que há várias possíbilidades de explorar o uso da “novidade técnica”. É por isso que o recurso em 3D em seu filme sempre deixa uma escolha para o espectador ao torcer-lhe a visão, sobrepondo, duplicando imagens, provocando a reflexão sobre a experiência do que chamamos de realidade. Em Godard o 3D não é mero artifício técnico, é linguagem.

O uso constante de citações bem como de muitas cenas de outros filmes intercaladas à narrativa faz do filme de Godard uma espécie de ‘ensaio cinematográfico de colagens’ que não se preocupa com a identificação das fontes mencionadas. Apenas nos créditos finais ficamos sabendo que ouvimos passagens das obras de escritores e filósofos que fazem parte da cultural ocidental.

O jogo de apropriações cria um efeito que podem dar margem a interpretações tanto apocalípticas quanto integradas, pois podemos acreditar em um adeus aos ideais que orientaram a cultura ocidental até agora ou então em uma reinvenção do pensamento para enfrentar os impasses do novo milênio.

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Enfim, o empreendimento de Godard pode ser classificado como um objeto cinematográfico não identificado, como bem o rotulou Luiz Zanin Oricchio em um ensaio sobre o filme para o jornal estado de São Paulo.

Explorando a ambiguidade na maneira como as novas tecnologias podem se tornar um valor para a forma de fazer cinema (algumas cenas são gravadas com o celular, por exemplo), Godard faz nascer o novo da metáfora do fim, tal como parece insinuar o choro da criança ao final do filme.

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3 Respostas para “Filmando a linguagem: o último filme de Jean-Luc Godard.

  1. Elizangela Santos

    Essas apropriações em “Adeus à linguagem” evidenciam uma tendência artística da contemporaneidade; ao compor a obra com citações, cenas de outros filmes e exploração dos recursos técnicos, o autor explora o diálogo com outras linguagens, tensionando seus limites. Seja no interior de uma mesma linguagem ou por meio de sobreposições, as práticas artísticas que apresentam essa porosidade de fronteiras, conduzem a obra para fora de seus limites estruturais. São entrecruzamentos que ilustram a inespecificidade na estética contemporânea, que permite a exploração de possibilidades diversas, como na narrativa fílmica de Godard.

    • Elisangela, obrigada pelo comentário. Então, concordo contigo, o tensionamento dos limites da linguagem, no caso a cinematográfica, acabam reinventando (aqui não sei se o termo que cabe melhor é reiventar ou inventar) uma nova linguagem. Agora, é curioso pensarmos nessa inespecificidade e dificuldade de “catalogação” de alguns objtos artísticos no contemporâneo, tenho percebido que há uma gama maior dessas “fusões” e Adeus à linguagem é um exemplo disso.

      • Elizangela Santos

        Pois é, Débora, há diversos exemplos de “objetos verbais não identificados” – para empregar um termos utilizado por Flora Sussekind (2013) -,os quais parecem buscar exatamente a indeterminação, a inespecificidade. O que pode não significar necessariamente uma falta de forma dessas obras, mas sim, outras formas do fazer artístico que prioriza a porosidade das fronteiras. Uma vez que esses objetos existem e chamam atenção por suas indefinições, nada mais natural que sejam lidos em consonância com as possibilidades proporcionadas na/pela contemporaneidade.

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