Ladrão que rouba ladrão…

Banksy

Por Débora Molina

Quando se fala em autoria, dentre as tantas imagens capazes de representar o trabalho do autor, é possível imaginar um sujeito solitário em frente ao computador, ou máquina de escrever, olhando para a página em branco à espera de inspiração. Embora palavras como inspiração e genialidade tenham surgido no contexto do século XVIII e sido desconstruídas ao longo do século XX, não há como negar que essa representação de autor permanece ainda muito presente em nosso tempo.

No livro, O gênio não original: poesia em outros meios no novo século, lançado no Brasil pela UFMG em 2013, a crítica norte-americana Marjorie Perloff manifesta-se a favor de uma nova concepção para o estatuto do autor e aposta na escrita não criativa, embasada em uma poética da apropriação. Partindo da defesa de uma poética conceitual, Perloff entende que a criação não depende da originalidade da escrita, mas de uma nova concepção de genialidade – um novo paradigma de criação que a autora chama de uma nova inventio, na qual o autor atua copiando, apropriando, reciclando a  produção artística de outros autores e obra. Assim, genialidade e originalidade são redefinidas: “as práticas atuais da arte têm seu próprio momento e inventio particulares, podemos desassociar a palavra original de sua parceira, a palavra gênio” (PERLOFF, 2013, p. 54).  Para apoiar tal assertiva, Perloff sustenta-se na obra do inusitado poeta conceitual Kenneth Goldsmith, professor de escrita não-criativa na universidade da Pensilvânia.

Kenneth Goldsmith, tornou-se conhecido mundialmente devido à criação e manutenção de um site chamado Ubu Web, plataforma on-line que funciona como um dos maiores acervos de materiais produzidos pela arte vanguardista, e também pela autoria do livro Uncreative writing que defende a escrita não-criativa apoiada na técnica de copiar e colar textos de terceiros. Em tom quase de manifesto, através da apropriação de uma frase escrita por Douglas Huebler, Goldsmith assume uma perspectiva artística que se concentra na arquitetura de uma poética a partir do que já existe, a habilidade de copiar, transcrever e colar: “O mundo está cheio de textos mais ou menos interessantes, eu não gostaria de acrescentar mais nada” (GOLSDSMITH, 2010).

A técnica da apropriação também encontrou seu lugar no Brasil, lançado no final de 2014, o livro Sujeito Oculto, da jornalista e escritora Cristiane Costa, rouba deliberadamente trechos de autores consagrados como Machado de Assis, Fitzgerald, Flaubert, entre outros. Na terceira e última parte, através de ensaios metaficcionais que analisam e “denunciam” o roubo de trechos e tramas de outras narrativas e os diversos sujeitos ocultos, Costa traz variados autores cujas vozes são tomadas de empréstimo  para compor o livro.

Por meio dessa apropriação, a autora parece brincar com a própria construção da autoria, que é remixada, sampleada (técnicas comuns à área musical, por exemplo).  Tal procedimento coloca em xeque as noções de originalidade e criatividade, ao menos tal como as consideramos desde o século XVIII, aproximando-se do que Goldsmith chama de  escrita não criativa ou, nas palavras de Perloff entendendo o autor como um “gênio não original”.

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5 Respostas para “Ladrão que rouba ladrão…

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  2. Debora gostei muito do seu texto Essa discussão toda nos faz pensar no autor contemporâneo. Estes escritores leem outros autores, e de certa forma a leitura funciona como uma operação de apropriação. Você citou o livro “O sujeito Oculto” da Cristiane Costa, o que me fez lembrar da Adriana Lisboa no romance “Um beijo de colombina” onde a autora recorre a poemas de Manuel Bandeira para compor sua prosa, é evidente que as autoras usam recursos diferentes para tecer suas narrativas. Mas uma pergunta que se torna presente em meio a estas discussões é: O que pode ser tido como original na literatura atual?

    • Neila, muito obrigada pelo comentário e pelas observações. Quando estava lendo ‘Beijo de Colombina’, o uso de trechos e títulos de poema do Manuel Bandeira na narrativa também me chamou a atenção. Embora, como bem observou, os meios de construção das tramas sejam diferentes, o uso de citações é um elemento importante para as duas obras,em Lisboa há intertextualidade e alguns trechos de poemas, em Costa uso quase que completo de citações e a discussão sobre plágio. A originalidade é um ponto contestável, Barthes no conhecido texto ‘A morte do autor’, traz para a discussão a relação da escrita com outras referências e outros textos, ‘escrever é uma colcha de retalhos’, trazendo por alto o texto, o difícil é pensar sobre o que diferencia a intertextualidade da apropriação, esse tem sido meu trabalho. Mas, um outro ponto que também me chamou bastante atenção nas duas narrativas, é a maneira em que a figura do autor é representada, ambas autoras são mulheres, e falaram de mulheres escritoras, há uma representatividade da angústia da escrita, a falta de inspiração, etc. Aí, retorno para sua observação, as duas narrativas trazem uma ideia de autoria em que ‘revelam’ uma diferença de meios para a escrita de ficção. Uma utiliza bandeira como inspiração, outra usa o plágio e plagia trazendo para esta seara uma outra representação de autor.

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