“Pedro” e suas aparições literárias

LEMEBEL 2

Eder Porto

Considerado pelo amigo e escritor Roberto Bolaño “o maior poeta de sua geração apesar de não ter escrito poemas”, Pedro Lemebel é muito pouco conhecido no Brasil. Inédito ainda em português, os poucos estudos acadêmicos sobre o autor, costumam compará-lo ao brasileiro Caio Fernando Abreu. O autor e performer chileno nasceu em 1952 e tem um longo histórico como ativista comunista e gay.  Na literatura, percebem-se várias referências autobiográficas e diversas vozes marginalizadas, seja o travesti, o índio da periferia, os perseguidos ou desaparecidos políticos.

  Em outubro do ano passado, Pedro Lemebel esteve em São Paulo e fez uma participação na Balada Literária/Festival Mix. Na ocasião, apareceu bem ao seu estilo – travestido, maquiado e “afiado” –, fazendo diversas piadas com a palavra “bicha”. No Brasil, ao saber sobre a polêmica que girava em torno da questão parlamentar da “cura gay”, Lemebel  disse:  “me curar seria tão impossível como domar uma anaconda”.

Em minha dissertação de mestrado, estudo o trabalho do autor chileno e investigo a possibilidade de analisar a performance pública do escritor em comparação com a representação de um personagem criado por ele mesmo em suas crônicas.

Lemebel sempre se mostra avesso a entrevistas, desconfiado e temperamental, ao mesmo tempo que é extremamente irreverente, desbocado e pícaro, tirando muitas gargalhadas nas conferências que dá, diante de auditórios lotados e atentos.  Essa performance pública é  (auto)ficcionalizada no livro Adiós Mariquita Linda (2004). Para confirmar essa autofiguração de Lemebel como escritor, escolhi a crônica Welcome San Felipe. Nela, Lemebel traça um retrato de “Pedro”, escritor convidado a participar de um evento literário numa cidade do interior, com banquete e recepção pelas autoridades locais.  É interessante notar como a representação do personagem é muito próxima à performance do próprio Lemebel  em eventos literários dos quais participa:

“[…] e se deu início a minha Crônica Show. Para quem nunca viu esse circo pobre, lhes conto que eu faço uma espécie de animação com leitura, vídeo e a música que vai tocando a Africa Sound enquanto desfilam os temas da ironia política (risadas), homossexualidades múltiplas (atenção), estéticas bastardas (emoção), para rematar com os direitos humanos (quase sempre os olhos se cristalizam com este doloroso tema). E então vem os aplausos, os vivas, as flores. E eu emocionado atiro beijos de chantilly para a eufórica plateia.” (LEMEBEL, 2004, p. 44)

Na mesma crônica, “Pedro” aceita participar do evento, mas se nega a figurar em público ao lado do prefeito da cidade  (“não cumprimento fascistas”, diz) e, como a assessora não consegue impedir o encontro, ele se irrita, puxa a toalha de uma mesa e derruba todo o churrasco que estava sendo servido, abandonando o local dramaticamente para desapontamento da comunidade.

 O que se percebe, em geral, é a construção de uma figura de autor (personagem) irresponsável e debochado, que (aparentemente) se ridiculariza, não leva (aparentemente) sua arte a sério e reforça a imagem do escritor-celebridade genioso (realidade, ficção ou ironia?),  ao mesmo tempo em que torce o nariz para as convenções sociais do seu meio e para a alta posição de literato.

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LEMEBEL, Pedro. Adiós Maqiruita Linda. Debolsillo: Santiago, 2007.

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