A farsa do livro

Débora Molina

A farsa do livro

Há alguns meses, estava eu, sem a menor pretensão, assistindo a um canal qualquer de televisão, quando me deparei com um dos mais incríveis episódios do The Simpsons.  O episódio 6, da 23ª temporada, intitulado originalmente de The book Job, brinca com um suposto mito sobre a relação do mercado editorial e o processo de autoria dos romances infanto-juvenis. Lisa, a famosa personagem cult, descobre que a autora de sua série favorita de livros é uma farsa: uma atriz contratada para se fazer passar pela autora apenas durante as fotos de divulgação dos livros da série.

Através do humor ácido, um mundo sobre o mercado literário é descrito: os livros são planejados com base em pesquisas de mercado e a escrita é ‘fabricada’ por um grupo de especialistas em literatura, viciados em remédios e loucos por um emprego. Decepcionada, Lisa retorna para casa e ao conversar com Homer sobre o crime perfeito arquitetado por editoras que apostam na contratação de ghost writers para produzir best sellers, inspira o pai a formar uma equipe para escrever um livro e faturar um milhão de dólares. A decepção de Lisa também a inspirou a escrever seu próprio romance à maneira dos “grandes autores”, segundo a personagem.

Bastante satírico, o episódio nos possibilita observar duas imagens ambivalentes sobre a concepção de autoria:  de um lado Homer monta uma equipe para escrever um livro, de outro, Lisa sofre para escrever a primeira linha do seu romance. Lisa encarnando uma caricatura do velho escritor romântico à espera da inspiração para a escrita de sua obra prima, perambula por cafeterias, busca ouvir boas músicas, procrastina o quanto pode o momento da escrita, já que as palavras não vêm.

O episódio segue com base em uma paródia ao filme “11 homens e um segredo”. Homer monta uma gang de “autores” e conta com a participação do famoso escritor americano de Best-sellers Neil Gaiman, que no episódio não sabe escrever. Em oposição à imagem romântica associada à autoria, ao autor gênio cheio de inspiração, a figura do autor aqui é subvertida: no lugar do autor, uma equipe de produção, substituindo o trabalho com a escrita, a fluidez de um trabalho quase mecânico realizado por uma equipe.

O episódio também tematiza a participação ostensiva dos editores na elaboração do romance, o desejo de estrelato dos autores, a construção dos gostos do público. Tendo terminado o livro, a equipe de Homer tenta vendê-lo para uma grande editora, mas, para receber o almejado dinheiro, a gang da escrita precisava de um front-man, de um nome para a capa. A reviravolta sarcástica consiste em que o papel de autor é oferecido para Lisa, que concorda com a proposta mesmo contrariando seu ideal de autoria.

Depois de assinado o contrato milionário, Lisa tem crises de consciência por ter aceito se tornar uma “fraude literária”, mas ainda há mais: o livro é completamente modificado. Ao questionar o editor sobre a mudança, Homer ouve como resposta que as modificações foram feitas de acordo com pesquisas de gosto do público.

Este episódio nos convida a pensar sobre as modificações do campo Literário e as reviravoltas em torno da concepção da autoria e da própria literatura no século XXI.

Assita o episódio completo Aqui!

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2 Respostas para “A farsa do livro

  1. é parece ter se tornado uma tônica os famigerados best sellers que conta com a máquina do capitalismo selvagem.

  2. Esse capítulo ” A farsa do livro” trata a elaboração do livro como uma conspiração no qual o foco inicial é a lucratividade e há um jogo de interesses da editora, do mercado, e da “equipe” que produz o livro, que por sinal deve atender a um público bem específico. Por outro lado a personagem Lisa traz questões de inspiração, pesquisa e transpiração para escrever, na tentativa de tornar-se escritora que mesmo tão convicta dos seus valores não é imune as investidas que o mercado oferece.
    Achei interessante também a maneira como os “especialistas em literatura” são rotulados de viciados em remédio e desesperados por emprego, sendo facilmente substituídos (como mostra a cena em que uma das componentes da equipe de “especialistas em literatura” é lavada por uma mangueira de água enquanto outra imediatamente ocupa seu lugar).

    Enfim divertido, interessante e bem bacana! Débora, valeu por recomendar!

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